Estudo revela que a Via Láctea passou por reconstrução completa há 11 bilhões de anos
Análise de dados do telescópio Gaia e simulações revelaram que a Via Láctea se reconstruiu há 11 bilhões de anos após colidir com a galáxia Gaia-Sausage-Enceladus. O impacto removeu 10 bilhões de massas solares de gás, gerando surtos estelares que formaram o disco fino atual. O estudo, publicado em maio de 2026, indica que a estrutura original data de 11,8 bilhões de anos

A análise de dados do telescópio espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), combinada a simulações cosmológicas, revelou que a Via Láctea passou por um processo de reconstrução completa há 11 bilhões de anos. O estudo, conduzido pelos astrofísicos Matthew Orkney, do Instituto de Ciências do Cosmos da Universidade de Barcelona (ICCUB), e Chervin Laporte, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), demonstrou que a velocidade de recuperação do disco galáctico está diretamente ligada à quantidade de gás arrastado durante colisões.
O evento central foi a colisão com a galáxia Gaia-Sausage-Enceladus (GSE), que possuía cerca de um quinto da massa da Via Láctea atual. O impacto provocou o fenômeno conhecido como *gas stripping*, no qual aproximadamente 10 bilhões de massas solares de gás molecular foram removidas do disco original, destruindo a estrutura estelar preexistente. Esse gás deslocado formou novas estruturas na periferia da galáxia, gerando ciclos de *star bursts* que duraram 2 bilhões de anos e permitiram a reformação do disco.
De acordo com a pesquisa, publicada em maio de 2026 no *Monthly Notices of the Royal Astronomical Society*, o disco fino atual da Via Láctea — que concentra 95% das estrelas observáveis da Terra, incluindo o Sol — começou a se formar 2 bilhões de anos após o Big Bang. Considerando que o Big Bang ocorreu há 13,8 bilhões de anos, a formação do disco original data de 11,8 bilhões de anos. Essa descoberta resolve uma controvérsia de 15 anos sobre a idade da estrutura, cujas estimativas anteriores oscilavam entre 6 e 12 bilhões de anos, posicionando a Via Láctea como uma das galáxias espirais mais antigas com disco preservado.
Para chegar a esses resultados, a equipe utilizou o mapeamento de 4 milhões de estrelas realizado pelo telescópio Gaia entre 2014 e 2022. O instrumento, desativado em janeiro de 2025 por falta de combustível, registrou posição, velocidade e brilho de 1,8 bilhão de estrelas com precisão de 24 microarcosegundos. Esses dados foram cruzados com 12 simulações do projeto Auriga, coordenadas pelo Instituto Max Planck de Astrofísica. Cada simulação processou 1 trilhão de partículas virtuais para reproduzir 13,8 bilhões de anos de evolução cósmica, utilizando o supercomputador SuperMUC-NG, na Alemanha.
O mecanismo de *gas stripping* é considerado universal para galáxias de porte similar. A conclusão foi corroborada por três simulações independentes do projeto EAGLE Simulations, liderado por Carlos Frenk, da Universidade de Durham, confirmando que discos finos podem sobreviver a colisões, desde que se reconstruam por meio de surtos estelares subsequentes.
Atualmente, o disco fino da galáxia possui 100.000 anos-luz de diâmetro e abriga 100 bilhões de estrelas. No entanto, a estrutura poderá ser parcial ou totalmente destruída em um novo evento: a colisão com a galáxia de Andrômeda (M31). Localizada a 2,5 milhões de anos-luz e aproximando-se a 400.000 km/h, a fusão deve ocorrer em 4 bilhões de anos, repetindo o processo de remoção de gás e resultando na criação de uma galáxia elíptica gigante, denominada provisoriamente como Milkomeda.
Apesar do avanço na compreensão da evolução galáctica, os pesquisadores não conseguiram determinar a origem exata da Gaia-Sausage-Enceladus, que foi completamente fragmentada após o impacto com a Via Láctea.