Estudo revela que o derretimento de geleiras ameaça biodiversidade de espécies exclusivas desses habitats
Estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences identificou 152 espécies vinculadas a geleiras globais. A pesquisa indica que 18 espécies especialistas podem perder 90% ou mais de seu habitat até 2100 devido ao degelo
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O derretimento acelerado das geleiras globais ameaça a sobrevivência de uma biodiversidade terrestre e de água doce significativamente mais diversa do que se imaginava anteriormente. Um estudo publicado na revista *Proceedings of the National Academy of Sciences* revela que essas massas de gelo não são apenas estruturas físicas em movimento, mas habitats complexos que abrigam organismos adaptados a condições extremas.
Para mapear essa vida invisível, uma equipe internacional revisou 2.695 trabalhos científicos, selecionando 124 pesquisas focadas em ambientes associados a geleiras. O resultado foi a elaboração de um mapa global com 482 registros verificados de animais, incluindo tardígrados (conhecidos como "ursos d'água"), colémbolos e rotíferos. Ao todo, foram identificadas ao menos 152 espécies vinculadas a esses ecossistemas.
A análise dividiu os organismos em dois grupos: aqueles que conseguem habitar outros locais e os especialistas, que dependem exclusivamente do gelo para sobreviver. Este segundo grupo representa quase metade das espécies detectadas e pertence a linhagens distintas do reino animal, evidenciando a complexidade biológica desses refúgios.
O impacto das mudanças climáticas sobre essa fauna foi estimado através do cruzamento de mapas de biodiversidade com modelos de perda de gelo. Em um cenário intermediário, a previsão é que 18 espécies especialistas percam 90% ou mais de seu habitat até o ano 2100. Cinco espécies correm o risco de perder totalmente seu espaço disponível, com perdas mais críticas em regiões de retrocesso rápido, como os Alpes Europeus.
Embora a liberação de terrenos anteriormente cobertos por gelo possa, com o tempo, permitir a colonização por comunidades com maior número de espécies, isso gera um paradoxo ecológico. Enquanto a biodiversidade local pode aumentar em certas áreas, a biodiversidade global diminui à medida que organismos únicos e exclusivos das geleiras desaparecem.
A descoberta altera a percepção tradicional sobre o degelo, que costumava ser analisado apenas sob a ótica do clima, da disponibilidade hídrica ou do nível do mar. O estudo indica que a perda dessas massas gélidas representa a destruição de um patrimônio biológico ainda pouco explorado, tornando urgente a proteção e a investigação desses ecossistemas antes de sua extinção completa.