Estudo revela que rios liberam carbono milenar na atmosfera em escala global
Estudo publicado na revista Nature indica que 59 ± 17% do CO₂ emitido por rios globais provém de estoques de carbono milenares. A pesquisa aponta a transferência anual de 1,2 ± 0,3 petagrama de carbono pré-industrial para a atmosfera. O fenômeno foi identificado via análises de radiocarbono em diversas regiões do mundo
Um estudo publicado na revista Nature em 4 de junho de 2025 revelou que os rios desempenham um papel muito mais ativo no sistema climático do que se supunha, atuando como rotas de liberação de carbono antigo para a atmosfera. A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Bristol, University of Oxford e do UK Centre for Ecology and Hydrology, identificou que 59 ± 17% do dióxido de carbono (CO₂) emitido por sistemas fluviais globais provém de estoques com idade milenar ou superior, armazenados em sedimentos, solos e formações geológicas.
Essa descoberta altera a premissa de modelos climáticos anteriores, que consideravam que a emissão de CO₂ pelos rios derivava majoritariamente da decomposição de biomassa recente, como folhas e plantas. Enquanto o carbono recente circula rapidamente entre a vegetação e a atmosfera, o carbono antigo estava fora desse ciclo ativo. Os dados indicam que os rios transferem anualmente cerca de 1,2 ± 0,3 petagrama de carbono pré-industrial para a atmosfera, volume que se aproxima da magnitude da troca líquida de carbono entre a atmosfera e a vegetação terrestre.
A identificação desse fenômeno foi possível por meio de análises de radiocarbono em centenas de medições globais, abrangendo regiões tropicais, temperadas e frias. O processo ocorre quando o carbono orgânico profundo, acumulado por milênios no solo, ou o carbono petrogênico, vindo da decomposição de rochas, é mobilizado por erosão, escoamento de água e dissolução de minerais. Uma vez transportados pelos rios, esses compostos são transformados em CO₂ e liberados, criando o que os pesquisadores descrevem como um "vazamento invisível" de carbono.
A mobilização desses estoques, anteriormente considerados estáveis, pode ser intensificada por mudanças ambientais. O aumento das temperaturas globais, alterações nos regimes de chuvas, mudanças no uso do solo e eventos extremos, como secas e enchentes, podem acelerar a erosão e o transporte desse material para os cursos d'água. Esse cenário sugere a possibilidade de um ciclo de retroalimentação, no qual o aquecimento global impulsiona a liberação de mais carbono, agravando o aquecimento do planeta.
Como o equilíbrio climático depende da relação entre fontes e sumidouros, a liberação de carbono antigo sem a devida compensação por absorção em outros sistemas pode resultar em um aumento líquido das concentrações atmosféricas de CO₂. A evidência de que esse processo é global e estrutural indica a necessidade de revisar os modelos climáticos atuais, que podem estar subestimando a quantidade de carbono liberada para a atmosfera, impactando as estratégias de mitigação e as políticas ambientais.