Ciência

Estudos apontam que a carcinicultura é a causa predominante da perda de manguezais no Nordeste

01 de Maio de 2026 às 15:12

Estudos de 2025 indicam que os manguezais do Nordeste brasileiro estão entre os ecossistemas costeiros mais produtivos e ameaçados do mundo. O ICMBio estima a perda de 25% dessas áreas no Brasil, sendo a carcinicultura a causa predominante na região. A degradação é agravada pela urbanização, poluição e remoção de restingas

Pesquisas publicadas em 2025 na *Brazilian Journal of Biological Sciences*, conduzidas por universidades brasileiras e europeias, apontam que os manguezais do litoral nordestino figuram simultaneamente como um dos ecossistemas costeiros mais produtivos e mais ameaçados do mundo. A degradação dessas áreas, que se estendem por mais de 3.300 quilômetros, representa a remoção de uma infraestrutura natural essencial para a proteção de estuários, economias pesqueiras e comunidades locais.

O ICMBIO estima que 25% dos manguezais do Brasil já desapareceram, sendo a carcinicultura a causa predominante no Nordeste. Em Pernambuco, dados de 2005 indicavam que a criação de camarão já havia provocado a perda de 9,6% dos manguezais no litoral norte do estado, antes mesmo da aprovação de grande parte da legislação ambiental vigente. Atualmente, o monitoramento de parcelas costeiras revela que a destruição persiste e se tornou mais complexa, unindo a expansão dos viveiros de camarão à urbanização, poluição por efluentes, descarte de resíduos sólidos e a introdução de espécies exóticas.

Fisicamente, os manguezais atuam como zonas de transição entre a terra e o mar, com vegetações de raízes aéreas adaptadas a solos salobros. No Nordeste, espécies como *Rhizophora mangle*, *Avicennia germinans*, *Avicennia schaueriana* e *Laguncularia racemosa* formam florestas densas que reduzem a velocidade das correntes e depositam sedimentos. Essa estrutura é vital para a proteção costeira, pois consegue reduzir a altura das ondas entre 50% e 70% em trechos de 500 metros de vegetação, evitando a destruição de infraestruturas e moradias durante ressacas e marés de tempestade.

Complementarmente, as restingas estabilizam as dunas e protegem o litoral contra a erosão eólica e a intrusão marinha. Quando essas barreiras biológicas são removidas para a construção de estradas, condomínios ou viveiros, a areia é carregada para o mar e estuários, acelerando a erosão costeira, processo este monitorado via satélite.

A carcinicultura, intensificada a partir dos anos 1980, converteu manguezais e apicuns em viveiros retangulares. Esse modelo gera impactos severos: a supressão da vegetação elimina a biodiversidade e a base da cadeia trófica dos estuários. O lançamento de efluentes orgânicos provoca a eutrofização da água, reduzindo o oxigênio e matando a fauna aquática, enquanto o uso de metabissulfito de sódio contamina os cursos d'água. Além disso, a ausência de raízes para reter sedimentos causa a erosão do solo e o assoreamento de canais, dificultando a navegação de barcos pesqueiros.

Socialmente, os estudos de 2025 destacam que a degradação beneficia proprietários de carcinicultura em detrimento de comunidades tradicionais. Marisqueiras e pescadores artesanais enfrentam a redução de estoques pesqueiros e a perda de sustento, enquanto a população local fica mais vulnerável a inundações. O paradoxo reside no fato de a carcinicultura ter sido apresentada como alternativa econômica, mas acabou destruindo as condições ecológicas que viabilizavam a pesca e o extrativismo.

Do ponto de vista climático, os manguezais são depósitos críticos de "carbono azul", armazenando entre 1.000 e 2.000 toneladas de carbono por hectare nos sedimentos anóxicos do solo. A conversão dessas áreas em fazendas de camarão transforma esse estoque secular em emissões atmosféricas, um custo ambiental que não é contabilizado no licenciamento ou no preço do produto exportado.

O monitoramento por satélite via INPE e universidades federais identifica dois padrões de perda: eventos abruptos, como o crescimento urbano em cidades como Fortaleza, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju; e a erosão gradual, causada pela poluição e compactação do solo, que compromete a função ecológica da floresta mesmo quando a vegetação ainda é visível.

Embora existam evidências de regeneração natural em viveiros abandonados e recuperações de restinga e caatinga no Ceará, a análise cienciométrica de 2025 indica que as pesquisas sobre recuperação são minoritárias. Programas de restauração efetiva permanecem raros e subfinanciados, evidenciando que a recuperação plena depende da remoção das pressões econômicas e da inclusão das comunidades tradicionais no planejamento da zona costeira.

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