Ciência

Estudos indicam que 90% dos pacientes em cuidados paliativos relatam sonhos e visões lúcidas

25 de Maio de 2026 às 06:14

Estudos em cuidados paliativos indicam que cerca de 90% dos pacientes relatam sonhos e visões lúcidas ao fim da vida. As experiências, focadas em vínculos afetivos e perdão, intensificam-se conforme a morte se aproxima. O fenômeno diferencia-se de delírios e experiências de quase morte por ocorrer de forma gradual

Estudos indicam que 90% dos pacientes em cuidados paliativos relatam sonhos e visões lúcidas
Dormir bem é cuidar do corpo, da mente e do metabolismo. - Divulgação

Pesquisas recentes na área de cuidados paliativos têm revelado a prevalência de fenômenos conhecidos como "End-of-Life Dreams and Visions" (ELDVs) — sonhos e visões do fim da vida. Diferente de delírios ou confusões mentais causadas por medicamentos, essas experiências são caracterizadas por uma lucidez incomum, ocorrendo em pacientes que se mantêm atentos, focados e orientados.

O neurobiólogo e médico Christopher Kerr, que estuda o tema desde o final dos anos 1990, acompanhou mais de 1.400 pacientes em unidades de cuidados paliativos ao longo de uma década. Seus dados indicam que cerca de 90% dos pacientes relataram tais vivências, independentemente de sua origem social, idade ou crenças religiosas. A psicóloga Elisa Rabitti, autora de um estudo italiano sobre o assunto, corrobora que esses relatos costumam ser coerentes e manifestados por pessoas com plena atenção.

Essas visões, que podem ocorrer tanto em sonhos quanto em estado de vigília, tendem a aumentar em intensidade e frequência conforme a morte se aproxima. Os temas centrais costumam ser universais, focando em vínculos afetivos, perdão e amor, frequentemente envolvendo reencontros com animais de estimação ou parentes já falecidos. Comuns são também os relatos de preparativos para uma viagem ou a resolução de conflitos e sentimentos de culpa.

Do ponto de vista clínico, os ELDVs distinguem-se das experiências de quase morte por não serem abruptas nem marcadas por elementos como túneis ou luzes intensas. Eles se desenvolvem gradualmente ao longo de dias ou semanas, funcionando como um processo de ordenação interior. Para Kerr, essas experiências possuem um valor terapêutico natural, alcançando dimensões emocionais onde a linguagem médica tradicional encontra limites.

Biologicamente, o fenômeno está associado à alteração dos ritmos de sono e vigília no processo de morrer, que é descrito como uma fase de sono crescente. Esse estado promove um recolhimento introspectivo, priorizando as relações humanas em detrimento de exigências externas. No entanto, Rabitti alerta que tais sonhos não devem ser interpretados como prenúncios precisos da morte, mas sim como correlações onde a iminência do fim pode estar associada a esse tipo de sonho.

O impacto dessas visões estende-se aos familiares. Quando a família compartilha ou toma conhecimento dessas experiências, o processo de luto tende a ser elaborado de forma mais serena. Casos documentados mostram que a sensação de que o paciente encontrou a paz ou resolveu pendências traz alívio aos sobreviventes.

A análise de Kerr sugere que o interesse atual por esses fenômenos é uma resposta à "esterilização" da morte na medicina moderna, que passou a tratar o fim da vida como um processo técnico e organizacional. Para o especialista, os ELDVs evidenciam que o morrer não é apenas a falência de órgãos, mas o encerramento de uma biografia, destacando a importância das relações e da proximidade humana até o momento final.

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