Experimentos indicam que a bactéria Deinococcus radiodurans pode sobreviver a trajetórias entre planetas
Experimentos com a bactéria Deinococcus radiodurans indicam que microrganismos podem sobreviver ao vácuo, à radiação e a pressões de impacto em trajetórias espaciais. Testes na Estação Espacial Internacional e simulações de colisões asteroidais demonstram a viabilidade física da panspermia, embora não existam provas de vida extraterrestre na Terra
A hipótese da panspermia, que propõe a possibilidade de microrganismos viajarem entre planetas dentro de meteoritos, tem sido testada por meio de experimentos que demonstram a viabilidade física desse processo, embora ainda não existam provas concretas de que a vida na Terra tenha tido origem extraterrestre. A teoria, sugerida inicialmente por Anaxágoras no século V a.C. e formalizada cientificamente por Svante Arrhenius em 1903, foi posteriormente desenvolvida pelos astrônomos Fred Hoyle e Chandra Wickramasinghe no século XX.
O centro dessas investigações recentes é a bactéria *Deinococcus radiodurans*. Registrada no Guinness Book como o organismo mais resistente à radiação do planeta, a bactéria suporta 3.000 vezes a dose letal para um ser humano, além de resistir ao vácuo, à desidratação extrema, ao frio intenso e a níveis críticos de acidez. Isolada originalmente em carnes enlatadas que haviam passado por radiação esterilizante, a espécie é estudada por Michael Daly, da Uniformed Services University of the Health Sciences, que aponta que sua resistência é incompatível com os níveis de radiação ionizante já registrados na Terra. Valerie Mattimore, da Louisiana State University, sugere que essa capacidade possa ser um efeito colateral da resistência à desidratação.
A viabilidade da sobrevivência no espaço foi testada no experimento Tanpopo, liderado pelo professor Akihiko Yamagishi, da Universidade de Farmácia e Ciências da Vida de Tóquio. Amostras da *Deinococcus radiodurans* foram expostas por três anos ao vácuo, à radiação ultravioleta e a variações térmicas nos painéis externos da Estação Espacial Internacional. Os resultados, publicados na revista *Frontiers in Microbiology* em agosto de 2020, indicam que a bactéria poderia sobreviver a trajetórias entre a Terra e Marte. Anteriormente, em 2018, a equipe de Yamagishi já havia detectado a presença natural da bactéria a 12 km de altitude na atmosfera terrestre, sugerindo que ela habita regiões próximas ao limite de desintegração de meteoritos.
Outro avanço significativo ocorreu em 2026, com um estudo publicado na *PNAS Nexus*. A pesquisa, conduzida por Lily Zhao, da Johns Hopkins University, simulou as pressões de choque geradas quando asteroides colidem com planetas e ejetam fragmentos ao espaço. A *Deinococcus radiodurans* sobreviveu a pressões de até 3 gigapascais (GPa), valor próximo aos 5 GPa que impactos reais podem gerar em Marte. Como fragmentos na periferia de zonas de impacto sofrem pressões menores, o dado torna fisicamente plausível que microrganismos sobrevivam em meteoritos ejetados. Esse resultado também acende um alerta sobre a proteção planetária reversa, indicando que sondas terrestres poderiam contaminar outros mundos.
Historicamente, o debate foi impulsionado em 1996, quando David McKay, da NASA, publicou na revista *Science* a descoberta de estruturas microscópicas no meteorito marciano ALH84001, encontrado na Antártida em 1984. Embora o anúncio tenha gerado repercussão global, a comunidade científica posteriormente concluiu que tais estruturas tinham origem abiótica, descaracterizando a prova de vida marciana.
Apesar dos sucessos laboratoriais, a panspermia enfrenta barreiras teóricas. A trajetória de Marte à Terra pode levar cerca de 10 mil anos, período em que a radiação cósmica e a falta de nutrientes desafiam a sobrevivência biológica. Além disso, a semelhança genética e bioquímica da *Deinococcus radiodurans* com outros organismos terrestres sugere que sua evolução ocorreu na Terra. Até o momento, nenhum organismo extraterrestre foi detectado em meteoritos, mantendo a panspermia como uma possibilidade física, mas sem comprovação histórica.