Fóssil de mandíbula indica que o gênero Paranthropus habitou o norte da Etiópia
Um fóssil de mandíbula de Paranthropus, datado de 2,6 milhões de anos, foi encontrado na região de Afar, no norte da Etiópia. O estudo, publicado na revista Nature, indica que o gênero possuía maior versatilidade alimentar e flexibilidade ecológica do que se supunha. O espécime MLP-3000 é o primeiro registro do grupo nessa localidade

A descoberta de um fóssil de mandíbula parcial, catalogado como MLP-3000, altera a compreensão sobre a distribuição geográfica e a capacidade de adaptação do gênero *Paranthropus*. O espécime, datado de aproximadamente 2,6 milhões de anos, representa o primeiro registro desse grupo de hominíneos na região de Afar, ao norte da Etiópia, situando-se a mais de 1.000 quilômetros ao norte de qualquer ocorrência anterior do gênero.
O estudo, liderado pelo paleoantropólogo Zeresenay Alemseged, da Universidade de Chicago, foi publicado na revista *Nature* em 21 de janeiro de 2026. O achado refuta a tese de que o *Paranthropus* jamais teria habitado o norte da Etiópia, região onde, apesar de décadas de escavações que revelaram fósseis de *Ardipithecus*, *Australopithecus* (como a famosa Lucy) e *Homo*, a ausência desse gênero específico era considerada intrigante.
Anteriormente, a ciência interpretava o *Paranthropus* como um hominíneo de dieta altamente especializada, dependente de alimentos duros e abrasivos, como raízes, sementes e tubérculos. Essa conclusão baseava-se em características físicas robustas — molares grandes, esmalte dentário espesso e a presença de uma crista sagital no crânio para fixação de potentes músculos mastigatórios —, o que rendeu ao grupo o apelido de "quebra-nozes". Acreditava-se que tal especialização limitasse sua presença a áreas específicas do sul e leste da África.
Contudo, a análise do MLP-3000 indica que o gênero possuía maior flexibilidade ecológica e versatilidade alimentar do que se supunha, sendo capaz de ocupar ambientes diversos. A robustez da mandíbula permitia o consumo de itens rígidos, mas não restringia a dieta exclusivamente a eles.
O processo de descoberta teve início em janeiro de 2019, no deserto de Mille-Logya, área remota do Afar com temperaturas superiores a 40°C. O fragmento, correspondente à metade esquerda da maxila inferior com um molar visível, foi localizado por Ali Haider, assistente local da equipe de Alemseged. Após a coleta, o material foi processado no Museu Nacional da Etiópia, em Adis Abeba.
A validação científica do fóssil demandou sete anos de análises. A equipe utilizou microtomografia computadorizada de alta resolução para examinar a arquitetura óssea interna e as raízes dentárias, permitindo distinguir o espécime de outros hominíneos da região. Os dados de micro-CT e os padrões de desgaste dentário confirmaram a classificação como *Paranthropus* e sugeriram a hipótese de maior versatilidade alimentar.
Com 2,6 milhões de anos, o MLP-3000 insere-se em um período de transição ambiental na África Oriental, marcado pela aridificação e a substituição de florestas por savanas. Esse intervalo temporal coincide com a emergência dos primeiros representantes do gênero *Homo* e a criação das ferramentas de pedra da indústria olduvaiense, tornando a presença do *Paranthropus* no Afar um dado relevante para a árvore evolutiva, embora o gênero seja considerado um ramo colateral e não um ancestral direto dos humanos modernos.