Infraestrutura resistente reduz danos de terremotos no Japão em comparação com a Venezuela
A impossibilidade de prever terremotos deslocou o foco tecnológico para a detecção e alerta precoce, visando a mitigação de danos. A disparidade de impactos entre Japão e Venezuela evidencia que a resistência infraestrutural reduz prejuízos, enquanto a escala de magnitude de momento quantifica a energia liberada
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A sismologia moderna enfrenta o desafio persistente da impossibilidade de prever com precisão quando e onde ocorrerão terremotos, independentemente de sua magnitude ou profundidade. Essa característica estocástica do processo sísmico, que envolve múltiplos fatores de propagação de falhas, torna as previsões determinísticas inviáveis, conforme analisa o sismólogo Hiroo Kanamori, professor emérito de Geofísica na Caltech.
A diferença no impacto de eventos sísmicos torna-se evidente ao comparar a situação recente da Venezuela e do Japão. Enquanto o arquipélago japonês registrou um sismo de menor magnitude com apenas quatro feridos e sem mortes, a Venezuela sofreu dois tremores fortes, com magnitudes de 7,2 e 7,5, que resultaram na destruição ou dano de aproximadamente 58 mil edifícios, segundo dados de satélite.
Essa disparidade de danos reflete a capacidade de adaptação infraestrutural. O Japão, localizado na convergência de quatro placas tectônicas e palco de 10% dos terremotos mundiais, desenvolveu edifícios mais resistentes devido ao histórico de cinco tremores de grande magnitude nos últimos 15 anos. Em contrapartida, Kanamori observa que, embora existam estudos técnicos sobre melhorias arquitetônicas em países afetados, a escassez de recursos financeiros impede a implementação de reformas estruturais necessárias.
Para mensurar esses eventos, Kanamori revolucionou a área na década de 1970 ao desenvolver, junto com Thomas C. Hanks, a escala de magnitude de momento (Mw). Diferente da escala Richter, que possui limitações para medir tremores extremamente fortes, a Mw utiliza um sistema logarítmico para quantificar com precisão a energia liberada, permitindo a comparação de grandes movimentos geológicos e auxiliando no planejamento urbano.
Diante da impossibilidade de previsão, o foco tecnológico migrou para a detecção e alerta precoce. Sistemas implementados em países como Estados Unidos, Taiwan, Itália, México e Japão captam vibrações iniciais para emitir avisos segundos antes do impacto. Kanamori, que atuou no Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), desenvolveu um algoritmo de detecção utilizado na Califórnia. A eficácia desses alertas depende de respostas automáticas, como a interrupção de elevadores, trens e sistemas médicos no momento do aviso.
Sobre o risco de tsunamis, o especialista explica que grandes maremotos são geralmente causados por movimentos verticais em zonas de subducção, como ocorre no Chile e Alasca. Embora falhas de deslocamento lateral, como as da Venezuela e Califórnia, produzam movimentos predominantemente horizontais e tsunamis menores, a possibilidade de deslizamentos marinhos torna prudente a preparação para esses riscos, especialmente através da criação de rotas de evacuação e estruturas verticais de proteção.
A experiência de Kanamori aponta cinco etapas essenciais para a mitigação de danos: a realização de estudos detalhados sobre cada tremor, a análise do que funcionou ou falhou, a melhoria de infraestruturas e uso do solo, o aprimoramento de sistemas de alerta em tempo real e a repetição desse ciclo após cada evento.
Recentemente, um estudo publicado na revista Science, com a participação de Kanamori, revelou que o terremoto de magnitude 9,1 que atingiu a região de Tōhoku em 2011 — responsável por quase 20 mil mortes e pela crise nuclear de Fukushima — teria deslocado o Japão entre 5 e 6 milímetros para o leste. O achado indica que o sismo provocou um deslocamento nas fronteiras das placas em uma área vasta, o que pode representar um novo fator de risco caso ocorram novos movimentos tectônicos.