Ciência

Inteligência artificial permite a leitura de papiro carbonizado da Antiguidade Clássica em Herculano

01 de Julho de 2026 às 12:42

O Vesuvius Challenge utilizou inteligência artificial e tomografia computadorizada para ler trechos do papiro carbonizado PHerc 1667, datado entre os séculos III e II a.C. A técnica recuperou 1,5 metros de texto com discussões filosóficas sobre ética e comportamento humano. O projeto agora busca processar mais de 600 rolos remanescentes da biblioteca de Herculano

Inteligência artificial permite a leitura de papiro carbonizado da Antiguidade Clássica em Herculano
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O uso de inteligência artificial permitiu a leitura de trechos de um papiro carbonizado durante a erupção do Vesúvio em 79 d.C., marcando uma nova fase na análise dos rolos de Herculano. O avanço, apresentado pelo Vesuvius Challenge, focou no manuscrito PHerc 1667, peça que permaneceu ilegível por décadas devido à sua extrema fragilidade e ao acúmulo de camadas que ocultavam a escrita.

Este documento integra centenas de rolos recuperados de uma villa na antiga cidade de Herculano, destruída por materiais vulcânicos. Acredita-se que a coleção estivesse ligada ao sogro de Júlio César, configurando a única grande biblioteca da Antiguidade Clássica a sobreviver, embora o calor intenso tenha transformado os papiros em massas rígidas e escuras.

Para evitar a destruição dos manuscritos, que frequentemente ocorria em tentativas anteriores com métodos químicos, gases ou pesos, a nova metodologia dispensa o contato físico. O processo consiste em realizar uma tomografia computadorizada do rolo, seguida da visualização virtual de suas camadas e da aplicação de modelos de aprendizado de máquina, treinados para diferenciar a tinta do suporte carbonizado.

No caso do PHerc 1667, a técnica possibilitou a visualização de quase 1,5 metros de texto, organizados em 20 colunas. O resultado contrasta com tentativas de abertura física realizadas na década de 1980, que resultaram em uma pontuação de legibilidade zero e na identificação de apenas letras isoladas. Brent Seales, professor de informática na Universidade de Kentucky e cofundador do projeto, destacou que, embora preservados fisicamente por quase dois milênios, esses textos estavam inacessíveis intelectualmente.

A interpretação do conteúdo e o treinamento dos modelos de reconhecimento de escrita foram liderados pela papiróloga Federica Nicolardi, da Universidade Federico II. O texto recuperado apresenta discussões filosóficas sobre comportamento humano, artes e ética, com forte ligação ao pensamento estoico. Foram identificados conceitos como "phronesis", a sabedoria prática, e "horme", referente ao impulso, discutindo como condutas mal reguladas podem gerar paixões prejudiciais ou desviar o indivíduo de seus objetivos. Um dos trechos traduzidos afirma que a compreensão de algo é impossível se houver um afastamento da própria natureza e de si mesmo.

Com base em referências internas e na caligrafia, estima-se que o PHerc 1667 date do século II a.C. ou, possivelmente, do final do século III a.C., posicionando-o como um dos rolos mais antigos do acervo. Paralelamente, a equipe conseguiu ler o manuscrito PHerc 139, que menciona o oitavo livro da obra "Sobre os deuses", atribuída a Filódes, confirmando que o texto possuía ao menos oito volumes.

Atualmente, o projeto enfrenta o desafio de processar mais de 600 rolos ainda fechados. A etapa atual demanda a integração de especialistas em leitura e edição para compreender a fundo o conteúdo dos textos digitalizados.

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