Ciência

Iphan reconhece como sítio arqueológico painel de gravuras afrodiaspóricas em sobrado de Ouro Preto

25 de Maio de 2026 às 15:12

O Iphan registrou, em 23 de março de 2026, como sítio arqueológico um conjunto de 26 gravuras do século XVIII e XIX em um sobrado de Ouro Preto. As imagens, atribuídas a pessoas escravizadas, incluem figuras humanas, animais e referências arquitetônicas da África Ocidental. O painel, localizado na Rua Conde de Bobadela, é classificado como de relevância nacional

Iphan reconhece como sítio arqueológico painel de gravuras afrodiaspóricas em sobrado de Ouro Preto
Imagem: Ilustração artística

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou, em 23 de março de 2026, um conjunto de gravuras localizadas no porão de um sobrado em Ouro Preto, Minas Gerais, como sítio arqueológico. Denominado "Inscrições Afrodiaspóricas", o painel é composto por 26 desenhos realizados com grafite mineral e incisões, possivelmente feitas com cacos de vidro ou pregos, em uma parede de pedras revestida por argamassa.

As imagens, produzidas entre a década de 1750 e a primeira metade do século 19, são atribuídas a pessoas escravizadas e trazem marcas da diáspora africana. Entre as figuras identificadas estão aves, um felino, plantas, formas geométricas, uma máscara com feições humanas e uma embarcação com três tripulantes. O conjunto inclui ainda uma criatura híbrida, com traços humanos e animais, e um desenho arquitetônico com referências da África Ocidental, retratando pessoas em um pátio e utilizando pilões — estrutura inexistente na América Portuguesa da época.

O achado ocorreu no imóvel número 134 da Rua Conde de Bobadela (antiga Rua Direita). A propriedade, construída há mais de 260 anos, foi adquirida pela família do administrador Philipe Passos por volta de 1980. As inscrições foram notadas por um funcionário apenas em 2017, durante a realização de obras no local.

Desde então, o arqueólogo e historiador Leonardo Klink, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desenvolve uma pesquisa de doutorado focada na preservação dos vestígios por meio de uma abordagem não interventiva. O estudo revelou que algumas gravuras são invisíveis a olho nu e sugere que o painel foi elaborado por múltiplas mãos, possivelmente ao longo de diferentes gerações. Para Klink, os desenhos podem representar memórias anteriores ao processo de escravização, refletindo a trajetória de indivíduos capturados na rota do Atlântico e levados até a então Vila Rica.

Embora o contexto exato da criação das imagens ainda esteja sendo definido, a pesquisa considera a possibilidade de o porão ter servido como senzala ou como um espaço reservado para a preservação de lembranças. Até meados da década de 1970, o ambiente era caracterizado por piso de terra, alta umidade, escuridão e ausência de energia elétrica.

O reconhecimento oficial do sítio arqueológico foi fundamentado em parecer técnico do arqueólogo Daniel Gabriel da Cruz, que destacou a singularidade do bem e a ausência de registros semelhantes na bibliografia consultada. O Iphan classificou o local como de relevância nacional, essencial para a reconstituração das trajetórias de pessoas submetidas à escravidão no Brasil. Atualmente, o órgão trabalha na elaboração de diretrizes para a visitação e no projeto de conservação do painel. A família de Philipe Passos planeja destinar o porão à contemplação das obras, seguindo as normas técnicas de exposição e preservação.

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