Ciência

Lago na Antártida serve como modelo para estudos de astrobiologia em Marte e Encélado

09 de Abril de 2026 às 18:25

O Lake Unter See, na Antártida, possui águas seladas por gelo, pH elevado e microbialitos no fundo. O ecossistema serve como modelo para estudos astrobiológicos sobre Marte e Encélado. Em 2019, a entrada de 17,5 milhões de metros cúbicos de água do Lake Ober See elevou o nível do lago e alterou sua composição química

O Lake Unter See, na Antártida, apresenta-se como um dos ambientes mais incomuns da Terra devido a uma combinação de profundidade, isolamento térmico e composição química atípica. Com profundidade máxima próxima a 170 metros, o lago permanece com a superfície congelada mesmo durante o verão antártico, mantendo as águas seladas sob uma camada de gelo que varia entre 2 e 4 metros. Esse isolamento é sustentado por ventos fortes e uma temperatura média anual de aproximadamente 10 graus Celsius negativos, embora a luz solar consiga atravessar a barreira de gelo para aquecer a água logo abaixo.

A química do local foge aos padrões habituais, caracterizando-se por um pH elevado, baixa concentração de dióxido de carbono dissolvido e altos níveis de metano e oxigênio. No fundo do lago, foram identificadas estruturas cônicas conhecidas como microbialitos, formadas por microrganismos fotossintetizantes que organizam sedimentos. Essas formações, que atingem até 70 centímetros de altura, são comparáveis aos estromatólitos mais antigos do planeta.

Devido a essas particularidades, o ecossistema serve como modelo para a astrobiologia. A bacia sul do lago, que é escura, estratificada e anóxica, é utilizada como referência para estudos sobre o oceano subterrâneo de Encélado. Já a condição das águas seladas por gelo permite comparações com lagos que podem ter existido em Marte, auxiliando na compreensão de como a vida persiste em condições extremas.

Apesar da aparência de estabilidade, o sistema é suscetível a alterações bruscas. Em 2019, durante trabalhos de campo, registrou-se uma elevação de 2 metros no nível da água, causada por uma descarga repentina de 17,5 milhões de metros cúbicos de água de degelo proveniente do Lake Ober See. O evento alterou o pH e injetou dióxido de carbono no sistema, composto do qual o lago é normalmente pobre. Esse aporte de carbono pode ter ampliado a produtividade microbiana, sugerindo que eventos periódicos de degelo funcionam como estímulos biológicos em ecossistemas antárticos.

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