Ciência

Levantamento internacional registra mais de mil espécies marinhas desconhecidas em um ano

20 de Maio de 2026 às 06:23

O The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census registrou 1.121 novas espécies marinhas entre abril de 2025 e março de 2026. O levantamento, divulgado em 19 de maio de 2026, resultou de 13 expedições que atingiram 6.575 metros de profundidade

Levantamento internacional registra mais de mil espécies marinhas desconhecidas em um ano
Ocean Census identifica 1.121 espécies marinhas, incluindo tubarão-fantasma e esponja carnívora, em áreas profundas do oceano global. (Imagem: Ilustrativa)

Um levantamento internacional coordenado pelo The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census registrou 1.121 espécies marinhas anteriormente desconhecidas entre 1º de abril de 2025 e 31 de março de 2026. O balanço, divulgado em 19 de maio de 2026, aponta um crescimento de 54% no ritmo anual de identificação de organismos, resultado de 13 expedições e oficinas técnicas realizadas com o apoio de instituições como o Schmidt Ocean Institute, CSIRO e JAMSTEC.

As amostras foram coletadas em diversos ambientes, desde águas tropicais rasas até regiões profundas, atingindo a marca de 6.575 metros de profundidade. Entre os achados, destaca-se a "bola da morte", uma esponja carnívora do gênero Chondrocladia localizada a 3.600 metros de profundidade no Oceano Austral, próximo às Ilhas Sandwich do Sul. Diferente de esponjas filtradoras, esse organismo utiliza ganchos superficiais para capturar e envolver presas, como crustáceos.

No Parque Marinho do Mar de Coral, na Austrália, foi identificada a quimera apelidada de "tubarão-fantasma" em profundidades entre 802 e 838 metros. Embora o nome sugira parentesco, o animal pertence a uma linhagem que se separou de tubarões e raias há aproximadamente 400 milhões de anos. Já na cadeia de montes submarinos Shichiyo, no Japão, pesquisadores localizaram o verme poliqueta *Dalhousiella yabukii* a 791 metros de profundidade. O organismo habita as câmaras de uma esponja de vidro com esqueleto de sílica cristalina, estrutura translúcida conhecida como "castelo de vidro". Em Timor-Leste, em águas rasas entre 1 e 5 metros, foi detectado um verme-fita de menos de 3 centímetros com listras alaranjadas, coloração que pode indicar a presença de defesas químicas.

O Ocean Census diferencia a "descoberta" da "descrição" de uma espécie. A descoberta ocorre via análise morfológica, genética ou ecológica, enquanto a descrição formal exige a publicação científica, a definição de um nome válido e o depósito de material de referência. Como o intervalo médio entre essas etapas é de 13,5 anos, o projeto implementou a plataforma Ocean Census NOVA. A ferramenta permite o registro de dados em acesso aberto para acelerar a disponibilidade de informações a gestores e autoridades, conectando uma rede de 1.400 taxonomistas de 660 instituições em 85 países.

A urgência no mapeamento é justificada pela estimativa de que até 90% das espécies oceânicas ainda não foram identificadas. A ausência desses dados dificulta a análise de impactos ambientais, especialmente diante de ameaças como a acidificação, o aquecimento dos oceanos, a perda de oxigênio e a poluição por plásticos, esgoto e resíduos industriais. A carência de informações sobre ambientes profundos também é central no debate sobre a mineração submarina; embora a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos ainda não tenha aprovado a exploração comercial em áreas internacionais, a discussão sobre as regras regulatórias segue em curso.

A documentação acelerada da biodiversidade serve como base para iniciativas de conservação, como o Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, que visa expandir áreas protegidas até 2030, e o Tratado de Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional. Para a chefia de ciência do Ocean Census, Michelle Taylor, a catalogação é uma corrida contra o tempo para proteger organismos que podem desaparecer antes do registro formal. O diretor do projeto, Oliver Steeds, ressalta que o custo para mapear a vida marinha é significativamente inferior aos investimentos globais em exploração espacial, tornando a preservação do conhecimento oceânico uma prioridade estratégica.

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