Ciência

Livro detalha como diferentes grupos humanos desenvolveram adaptações biológicas para sobreviver em ambientes extremos

06 de Abril de 2026 às 21:51

No livro “Adaptável”, o antropólogo Herman Pontzer descreve adaptações biológicas humanas em ambientes extremos. O texto detalha mudanças pulmonares e sanguíneas em populações dos Andes e do Himalaia, além do aumento do baço no povo Sama. A obra também aborda a posição da laringe humana e sua relação com a fala e a asfixia

A diversidade geográfica da espécie humana, presente em todos os continentes exceto na Antártida, resultou em modificações biológicas profundas para a sobrevivência em ambientes extremos. No livro “Adaptável”, publicado em 2025 pela Penguin Random House, o antropólogo evolucionista Herman Pontzer, professor da Universidade Duke, detalha como diferentes grupos humanos desenvolveram soluções distintas para enfrentar pressões ambientais semelhantes.

Nas altitudes elevadas dos Andes, a escassez de oxigênio levou as populações nativas a desenvolverem caixas torácicas e pulmões maiores para otimizar a troca gasosa. O organismo desses grupos também intensifica a produção de glóbulos vermelhos via hormônio EPO (eritropoietina). Contudo, essa adaptação torna o sangue mais viscoso, elevando o risco de mal da altitude — condição que causa náuseas, dores de cabeça e acúmulo de líquidos no cérebro e pulmões. Estima-se que 15% dos adultos andinos sofram de mal da montanha crônico.

Um caminho biológico diferente foi adotado pelas populações do Himalaia. Apesar de enfrentarem a mesma baixa concentração de oxigênio, esses grupos possuem o alelo do gene EPAS1, que mantém os níveis de glóbulos vermelhos baixos, evitando a viscosidade sanguínea e o mal da montanha. Essa característica genética é fruto de cruzamentos com os Denisovanos, uma espécie humana extinta, ocorridos há cerca de 50 mil anos. Embora o gene tenha sido neutro por milênios, tornou-se predominante há nove mil anos, quando essas populações migraram para as montanhas e a variante Denisovana passou a conferir vantagem na sobrevivência.

Já no sudeste asiático, o povo Sama (ou Bajau), que vive em casas flutuantes entre a Malásia, Indonésia e Filipinas, apresenta adaptações voltadas ao mergulho profundo. Capazes de permanecer submersos por quatro ou cinco horas diárias e atingir profundidades superiores a 60 metros, esses indivíduos desenvolveram baços significativamente maiores. A seleção natural favoreceu o alelo do gene PDE10A, que pode dobrar o volume do órgão em quem possui duas cópias do gene. O baço ampliado atua como um reservatório de glóbulos vermelhos que, ao se contrair em águas frias, oxigena o corpo durante a imersão.

Além dos ambientes extremos, a própria estrutura do corpo humano reflete trocas evolutivas. A laringe humana posiciona-se na parte inferior da garganta, diferentemente de outros primatas, onde fica na parte superior. Essa configuração permite a complexidade sonora da fala, mas gera a vulnerabilidade à asfixia, resultando em mais de cinco mil mortes anuais apenas nos Estados Unidos.

Para Pontzer, a evolução opera como uma "mecânica de ferro-velho", utilizando os materiais disponíveis para resolver problemas imediatos, sem criar soluções perfeitas. O resultado é a capacidade única da espécie humana de se ajustar a qualquer ecossistema terrestre, desde oceanos profundos até as montanhas mais altas, transformando a biologia corporal conforme a pressão de cada ambiente.

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