Ciência

Marcas de teste de extração de metais no Pacífico permanecem visíveis após 40 anos

29 de Maio de 2026 às 09:23

Expedição de 2023 constatou que marcas de extração de metais no Oceano Pacífico permanecem visíveis após 40 anos. O estudo na zona Clarion-Clipperton indicou sedimentos alterados e redução de organismos de maior porte desde 1979

Marcas de teste de extração de metais no Pacífico permanecem visíveis após 40 anos
Mineração no fundo do mar no Pacífico alerta para cobre, cobalto e baterias, com risco ambiental em águas profundas.

Uma expedição científica realizada em 2023 revelou que marcas de um teste de extração de metais no leito do Oceano Pacífico permanecem visíveis mais de 40 anos após a atividade. O estudo analisou a zona Clarion-Clipperton, região rica em nódulos polimetálicos, onde a retirada de pequenos minerais em 1979 provocou alterações duradouras nos sedimentos e a redução de diversos organismos de maior porte.

A recuperação do ecossistema abissal mostrou-se lenta e desigual. Enquanto seres menores e mais móveis apresentaram sinais de recolonização, a fauna maior segue reduzida ou ausente. Essa persistência dos danos é atribuída às características do ambiente profundo, marcado pela escassez de luz e alimento, além do crescimento lento dos organismos, o que torna qualquer perturbação física visível por décadas.

A descoberta ocorre em um momento de impasse global sobre a viabilidade da mineração comercial em águas profundas. A zona Clarion-Clipperton é um dos principais alvos de empresas interessadas em cobalto, cobre e níquel, metais essenciais para a fabricação de baterias, carros elétricos e tecnologias de energia limpa. No entanto, os nódulos polimetálicos não são apenas minérios, mas parte integrante do habitat onde a vida se organiza, tornando sua remoção uma alteração física drástica da superfície marinha.

Atualmente, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, vinculada às Nações Unidas, trabalha na elaboração de um código de mineração para regulamentar a atividade em águas internacionais. O cenário é de divisão: 32 governos e 63 instituições financeiras e empresas apoiam a implementação de uma moratória ou pausa, argumentando que a falta de dados sobre riscos de longo prazo impede a liberação comercial. Em contrapartida, companhias do setor, como a canadense The Metals Company, defendem que a extração oceânica teria menor impacto que a mineração terrestre, por exigir a movimentação de menos material.

A pressão sobre os reguladores aumentou com a intenção de empresas de submeterem pedidos formais de exploração antes mesmo da conclusão do arcabouço legal. Para os críticos, avançar sem a compreensão plena dos impactos pode repetir erros ambientais históricos em um ambiente onde o monitoramento e a reparação de danos são significativamente mais complexos.

Além da remoção direta dos nódulos, a ciência alerta para os riscos das plumas de sedimento. Máquinas operando no fundo do mar podem suspender partículas que se espalham por áreas adjacentes, enquanto a descarga de materiais processados em camadas intermediárias do oceano pode afetar a coluna d’água. Revisões científicas indicam que a reação a essas perturbações varia conforme o ecossistema, sendo que em fontes hidrotermais e montes submarinos o risco de perda de biodiversidade é ainda mais crítico devido ao isolamento das espécies.

O cenário evidencia uma contradição na transição energética: a busca por minerais para reduzir emissões globais pode gerar pressões irreversíveis sobre ecossistemas profundos, ainda pouco estudados e com muitas espécies não descritas. O fato de um teste limitado de 1979 ter deixado cicatrizes por mais de quatro décadas sugere que operações comerciais em larga escala teriam impactos que atravessariam gerações humanas.

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