Missão chinesa Chang’e 6 revela mudança na composição de asteroides que atingiram a Lua e a Terra
Análise de amostras da missão chinesa Chang’e 6 identificou que a composição de asteroides que atingiram o sistema Terra-Lua mudou entre 4,3 e 2,8 bilhões de anos. O estudo indica que asteroides não carbonáceos predominavam inicialmente, seguidos por um aumento de corpos carbonáceos, ricos em água e matéria orgânica

A análise de amostras coletadas pela missão chinesa Chang’e 6 revelou uma mudança significativa na composição dos asteroides que atingiram o sistema Terra-Lua entre 4,3 bilhões e 2,8 bilhões de anos atrás. O estudo, publicado no *Journal of Geophysical Research: Planets* em 12 de maio de 2026, identificou que houve uma transição no tipo de material impactante: inicialmente predominavam asteroides não carbonáceos, vinculados ao Sistema Solar interior, seguidos por um aumento na proporção de asteroides carbonáceos, ricos em matéria orgânica e água.
A investigação concentrou-se em 40 clastos de impacto — pequenos fragmentos resultantes de colisões violentas — provenientes do lado oculto da Lua. Esses fragmentos foram divididos em dois grupos distintos para permitir a comparação temporal. O primeiro grupo, composto por 13 clastos mais antigos, originou-se de anortositos das terras altas lunares e preserva registros de até 4,3 bilhões de anos. Neles, os metais identificados correspondem a meteoritos de ferro e condritos ordinários, com menos de 8% de metais de asteroides carbonáceos.
O segundo grupo, formado por 27 clastos mais jovens, está associado a detritos basálticos de impactos ocorridos nos últimos 2,8 bilhões de anos. Nestas amostras, a presença de metais de asteroides carbonáceos subiu para aproximadamente 26%, confirmando que esses corpos passaram a contribuir mais para as colisões em um período posterior.
Essa descoberta altera a compreensão sobre a chegada da água à Terra primitiva. Como os asteroides carbonáceos são fontes conhecidas de água e voláteis, o fato de terem aparecido em maior quantidade apenas quando o fluxo de impactos já havia diminuído sugere que o volume de água entregue por esse meio pode ter sido menor do que previam hipóteses anteriores.
A Lua é fundamental para essa reconstrução histórica porque, ao contrário da Terra, não possui placas tectônicas ou erosão hídrica que apaguem as marcas geológicas, funcionando como um arquivo estável dos eventos do Sistema Solar. Lin Yangting, do Instituto de Geologia e Geofísica da Academia Chinesa de Ciências, ressalta que o satélite serve como um controle histórico para entender o ambiente de formação do nosso planeta.
Para explicar a transição na composição dos asteroides, a equipe científica propõe três mecanismos orbitais. O primeiro seria a migração de planetas gigantes, que teria deslocado asteroides carbonáceos para as regiões internas do sistema. O segundo é o efeito Yarkovsky, onde forças térmicas alteram gradualmente a órbita de corpos espaciais. A terceira possibilidade é a fragmentação de grandes corpos carbonáceos, gerando campos de detritos que cruzariam a trajetória da Terra e da Lua.
A missão Chang’e 6 permitiu o acesso a materiais de uma região lunar pouco explorada, refinando a leitura sobre a evolução orbital de corpos celestes e a origem dos componentes orgânicos e hídricos no Sistema Solar interior.