Ciência

NASA busca confirmar reservas de gelo no polo sul da Lua para viabilizar missões humanas

02 de Maio de 2026 às 06:11

A NASA utiliza mapas orbitais para localizar gelo no polo sul da Lua, visando a viabilização de missões humanas via uso de recursos locais. Após o cancelamento da missão VIPER, a agência enviará um detector de nêutrons na missão LUPEX em março de 2026. A extração do recurso depende de medições diretas no solo para determinar a viabilidade operacional

A busca por gelo de água no polo sul da Lua é um dos pilares para a viabilização de missões humanas de longa duração, embora a NASA ainda não possua confirmações oficiais sobre o volume de reservas disponíveis ou a capacidade de sustentar tripulações numerosas em crateras específicas. O que existe, atualmente, são dados públicos e mapas orbitais que indicam a presença de água e gelo, especialmente em regiões permanentemente sombreadas, servindo como guia para identificar locais com maior probabilidade de concentração desse recurso.

A confirmação mais documentada ocorreu em outubro de 2009, quando a missão LCROSS, em conjunto com o Lunar Reconnaissance Orbiter, identificou água congelada na cratera Cabeus após o impacto de um estágio de foguete. Desde então, instrumentos orbitais têm refinado mapas de hidrogênio e temperatura para localizar áreas de preservação do gelo. No entanto, a agência espacial norte-americana ressalta que sinais orbitais não equivalem a reservas exploráveis, pois o gelo pode estar misturado ao regolito, distribuído em baixas concentrações ou preso em grãos microscópicos.

Para que esse recurso seja integrado a bases lunares, é fundamental realizar medições diretas no solo para determinar a profundidade, a pureza e a distribuição do gelo. Esse processo é essencial para avaliar se a extração em escala operacional é viável. O conceito, conhecido como ISRU (uso de recursos locais), visa reduzir custos logísticos e aumentar a autonomia das missões ao aproveitar materiais do próprio ambiente. A água poderia ser utilizada para consumo humano, higiene, produção de oxigênio e, via eletrólise, na separação de hidrogênio e oxigênio para a fabricação de propelentes.

A aplicação prática desse recurso exige a superação de desafios técnicos severos, como a operação em temperaturas extremas, baixa gravidade e a presença de poeira abrasiva. O processo de extração envolveria a perfuração do regolito, o aquecimento controlado para a captura de vapor, a condensação em tanques e a filtragem rigorosa para remoção de contaminantes.

No campo operacional, o programa Artemis e outras missões científicas focam no polo sul lunar devido à combinação de áreas sombreadas e pontos elevados com maior incidência solar. Contudo, o cronograma tem sofrido ajustes; a Artemis III, prevista para 2027, será uma missão de demonstração em órbita baixa da Terra para testar o acoplamento entre a Orion e naves comerciais. Outro revés ocorreu em julho de 2024, com o cancelamento da missão VIPER, projetada para investigar voláteis no polo sul, devido a riscos orçamentários e atrasos. Como alternativa, a NASA anunciou que, em março de 2026, um instrumento de detecção de nêutrons será enviado na missão LUPEX, liderada por JAXA e ISRO, para buscar sinais de hidrogênio.

Além da extração, a reciclagem permanece central para a sobrevivência espacial. Na Estação Espacial Internacional, a NASA atingiu a marca de 98% de recuperação de água, processando urina, suor e umidade do ar. Essa tecnologia serve de base para habitats lunares, onde a água também poderá ser estudada como barreira de proteção contra radiação nos módulos habitáveis.

A exploração desses recursos também levanta questões diplomáticas e científicas. Enquanto os Acordos Artemis promovem a cooperação internacional e o uso pacífico do espaço, pesquisadores alertam para a necessidade de protocolos que evitem a contaminação de regiões permanentemente sombreadas, que guardam registros antigos do Sistema Solar. Até que a extração e o tratamento de água sejam demonstrados em ambiente real, a viabilidade de bases permanentes dependentes desse recurso permanece como um objeto de investigação.

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