Ciência

Neandertais e humanos modernos compartilhavam a base genética necessária para a fala complexa

28 de Abril de 2026 às 17:52

Estudo na Science Advances indica que Neandertais possuíam as regiões genômicas HAQERs, com influência na comunicação 200 vezes superior a demais sequências. Tais elementos surgiram antes do distanciamento entre Homo sapiens e Neandertais, ocorrido entre 765 mil e 550 mil anos atrás. A análise genômica abrangeu mais de 100 mil indivíduos

A descoberta de que os Neandertais possuíam a infraestrutura biológica necessária para a comunicação complexa altera a compreensão sobre a evolução da fala. Um estudo publicado na revista Science Advances revelou que esses parentes extintos compartilhavam com os humanos modernos regiões genômicas específicas, conhecidas como HAQERs (regiões evoluídas rapidamente por ancestrais humanos), que exercem uma influência desproporcional na capacidade linguística.

Embora representem menos de 0,1% do genoma, as HAQERs impactam as habilidades de fala 200 vezes mais do que qualquer outra sequência genética analisada. Diferente dos genes convencionais, esses elementos atuam como reguladores, funcionando como interruptores que determinam o momento e a forma como genes são ativados durante o desenvolvimento cerebral, moldando as estruturas neurais que sustentam a linguagem.

A robustez dessa evidência foi estabelecida por meio de uma metodologia que integrou a genética a testes práticos. Inicialmente, pesquisadores analisaram o DNA de 350 crianças e correlacionaram a presença de HAQERs com o desempenho em avaliações linguísticas nos primeiros anos escolares. A intensidade dessa influência foi posteriormente confirmada em uma amostra global de mais de 100 mil indivíduos, abrangendo diversas etnias e idiomas, o que afasta a possibilidade de coincidências estatísticas.

De acordo com o neurocientista e psiquiatra Jacob Michaelson, da Universidade de Iowa, a capacidade de fala não é determinada por um único gene, mas pelo efeito coletivo de variações distribuídas no genoma, sendo as HAQERs os pontos de maior impacto. A cronologia evolutiva indica que essas regiões surgiram após a separação entre ancestrais humanos e chimpanzés, ocorrida entre seis e oito milhões de anos atrás, mas antes da divisão entre Homo sapiens e Neandertais, estimada entre 765 mil e 550 mil anos atrás.

Essa linha temporal sugere que a maquinaria biológica para a fala foi herdada de um ancestral comum, tornando a linguagem um atributo compartilhado e não exclusivo do Homo sapiens. A presença dessas sequências no DNA neandertal, somada à sua organização social e cultura material, elimina o argumento de que a espécie carecia de recursos genéticos para se comunicar.

O estudo também identificou que as HAQERs permaneceram estáveis nos últimos 20 mil anos. Essa interrupção na evolução é atribuída a um limite físico: como essas regiões influenciam o crescimento do cérebro e do crânio, qualquer aumento adicional elevaria os riscos do parto para a mãe. Os Neandertais, que possuíam cérebros em média maiores que os dos humanos modernos, teriam enfrentado esse mesmo teto evolutivo, estabilizando a capacidade linguística.

Embora a descoberta não prove categoricamente que os Neandertais falavam, ela redefine a linha do tempo da linguagem, movendo sua origem para um período muito anterior aos últimos 200 mil anos. Existe ainda um debate científico sobre se as HAQERs surgiram especificamente para a fala ou se a linguagem seria uma consequência secundária de cérebros maiores e mais complexos. Independentemente dessa distinção, a similaridade genética aproxima as duas espécies e fornece evidências que a paleontologia não pode ignorar.

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