Neurociência sugere que é possível cultivar a flexibilidade mental para lidar com transformações contemporâneas
A neurocientista Hannah Critchlow afirma que a flexibilidade mental para as transformações atuais pode ser cultivada via atividade física, sono, dieta e treino de inteligência emocional. O potencial cognitivo e a criatividade dependem da bioenergia mitocondrial e de estados de relaxamento. Estudos indicam ainda que a microbiota intestinal influencia comportamentos altruístas através da produção de neurotransmissores
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Apesar de a estrutura cerebral humana ter permanecido praticamente a mesma desde a Idade da Pedra — com evidências arqueológicas indicando, inclusive, uma redução no tamanho do cérebro nos últimos 10 mil anos —, a neurociência sugere que é possível cultivar a flexibilidade mental necessária para lidar com as rápidas transformações do século 21. A neurocientista Hannah Critchlow, da Universidade de Cambridge, defende que o conhecimento que impulsionou o desenvolvimento da inteligência artificial pode ser aplicado inversamente para otimizar o potencial cognitivo orgânico.
Um dos pilares para enfrentar a ambiguidade e as incertezas contemporâneas é a manutenção da "bioenergia". Esse processo depende das mitocôndrias, as centrais energéticas das células, que demandam combustível adequado para sustentar o esforço mental. A multiplicação dessas usinas de energia no corpo e no cérebro é estimulada pela atividade física, enquanto a eliminação de resíduos tóxicos da produção energética ocorre durante o sono. A dieta também desempenha papel fundamental, sendo recomendada a redução de açúcares e alimentos processados para garantir a qualidade da energia gerada.
A capacidade de inovação e a criatividade, por sua vez, estão ligadas a estados de relaxamento e à atividade de ondas alfa no cérebro. Momentos de mente vagando, que ocupam cerca de 20% do dia, e atividades como caminhadas na natureza favorecem a geração de novas ideias. O sono, especialmente no estágio de transição para o adormecimento, também estimula ondas cerebrais associadas ao pensamento criativo, mecanismo este que teria sido explorado por figuras como Thomas Edison e Arquimedes.
No campo das interações sociais, a inteligência emocional e a empatia são apontadas como preditores essenciais para o sucesso acadêmico e a satisfação pessoal. Embora a hereditariedade represente entre 10% e 45% dessas capacidades, elas podem ser treinadas, começando pela prática da autocompaixão.
A influência do corpo sobre o comportamento também se estende ao sistema digestivo. Um estudo realizado pelo instituto Insead, na França, com 100 voluntários, demonstrou que o uso de pré e probióticos durante sete semanas resultou em uma microbiota intestinal mais diversificada e em um aumento do comportamento altruísta, como a disposição em abrir mão de dinheiro em prol da igualdade.
Esse fenômeno ocorre porque bactérias intestinais produzem neurotransmissores que alteram circuitos neurais. Sinais são enviados via nervo vago até a ínsula — região responsável pela coleta de informações do ambiente —, chegando posteriormente às áreas de tomada de decisão do cérebro.
Para Critchlow, a tensão entre o receio natural do cérebro humano diante de mudanças e a predisposição da espécie para a curiosidade e exploração é inerente à natureza humana, devendo ser aceita como parte do processo de adaptação ao futuro.