Níveis de dióxido de carbono no sangue humano cresceram nas últimas duas décadas, indica pesquisa
Estudo de instituições australianas com 7 mil pessoas identificou que o bicarbonato sanguíneo subiu 7% entre 1999 e 2020, acompanhando a alta do CO2 atmosférico. A pesquisa, publicada na revista Air Quality, Atmosphere and Health, registrou também a queda de 2% nos níveis de cálcio e 7% nos de fósforo no sangue

Uma pesquisa publicada em fevereiro de 2026 identificou que os níveis de dióxido de carbono (CO2) no sangue humano apresentam um crescimento constante nas últimas duas décadas, acompanhando a trajetória de elevação do gás na atmosfera. O estudo, realizado pelo The Kids Research Institute Australia em colaboração com as universidades Curtin e Nacional Australiana, analisou exames de aproximadamente 7 mil pessoas, sendo a primeira investigação de larga escala a detectar esse padrão no corpo humano.
Os dados, divulgados na revista científica *Air Quality, Atmosphere and Health*, revelam que o bicarbonato sanguíneo — principal via de circulação do CO2 no organismo — subiu cerca de 7% entre 1999 e 2020, passando de 23,8 para 25,3 miliequivalentes por litro. No mesmo intervalo, a concentração de CO2 na atmosfera saltou de 369 partes por milhão, no ano 2000, para mais de 420 atualmente, o patamar mais elevado registrado na história da espécie humana.
O mecanismo observado indica que a maior inalação de CO2 torna o sangue levemente mais ácido. Para neutralizar essa acidez e manter o equilíbrio do organismo, os rins passam a produzir e reter mais bicarbonato, o que reflete o aumento do marcador nos exames de sangue.
Essa compensação biológica, porém, apresenta impactos colaterais. Durante o período analisado, houve uma queda de aproximadamente 2% nos níveis de cálcio e de 7% nos de fósforo no sangue. A hipótese dos pesquisadores é que os ossos atuem como amortecedores, liberando esses minerais para auxiliar no tamponamento da acidez sanguínea.
As projeções do estudo apontam que, caso o ritmo atual seja mantido, o bicarbonato no sangue poderá atingir o limite superior da faixa saudável por volta de 2076. Já o cálcio e o fósforo podem se aproximar do limite mínimo saudável até o final deste século. O grupo de maior exposição são as crianças e adolescentes, devido ao tempo acumulado de respiração de um ar progressivamente mais carregado de CO2 nas próximas décadas.
Apesar da forte correlação entre as curvas de CO2 atmosférico e de bicarbonato sanguíneo, os autores ressaltam que a relação de causa e efeito ainda não foi provada definitivamente. Outras variáveis, como alterações na dieta, peso da população e a função renal ao longo dos anos, podem influenciar os números.
O trabalho classifica a atmosfera como "potencialmente" tóxica e define o sinal como preocupante, embora a interpretação exata do fenômeno ainda demande investigações. A descoberta expande a compreensão sobre as mudanças climáticas, sugerindo que o excesso de dióxido de carbono pode deixar marcas mensuráveis no corpo humano, indo além dos impactos ambientais tradicionais, como temperatura e nível do mar.