Níveis elevados de lipoproteína(a) aumentam o risco cardiovascular mesmo em pacientes sob tratamento convencional
Estudo com 20.070 participantes apresentado na conferência SCAI 2026 indica que níveis elevados de lipoproteína(a) aumentam o risco de morte cardiovascular e derrame. Devido a esse risco residual, novas diretrizes recomendam a medição do marcador ao menos uma vez na vida de todo adulto

Níveis elevados de lipoproteína(a), a Lp(a), aumentam significativamente o risco de morte cardiovascular, derrame e complicações cardíacas graves, mesmo em pacientes que seguem o tratamento convencional com anti-hipertensivos e estatinas. A descoberta foi detalhada em 24 de abril, durante a conferência SCAI 2026, em Montreal, após a análise de amostras de plasma de 20.070 participantes com 40 anos ou mais.
O estudo baseou-se em dados de três ensaios clínicos do National Institutes of Health (NIH): o SPRINT, focado em hipertensão; o PEACE, voltado para doença coronariana estável; e o ACCORD, que acompanhou pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. Os pesquisadores utilizaram a unidade nmol/L para a medição da Lp(a), considerada mais precisa que mg/dL, e constataram que a persistência de níveis altos da partícula gera um risco residual cardiovascular, mantendo a probabilidade de eventos graves acima do esperado, apesar do controle da pressão arterial e do LDL.
Diferente do LDL, o colesterol "ruim" monitorado em exames de rotina, a Lp(a) carrega a apolipoproteína(a). Essa estrutura interfere na dissolução de coágulos e potencializa obstruções em vasos com aterosclerose. Como as estatinas reduzem o LDL, mas não impactam a Lp(a) de forma relevante, pacientes com indicadores de colesterol comuns normalizados podem carregar um risco oculto.
A concentração de Lp(a) é determinada em cerca de 90% por fatores genéticos, permanecendo estável ao longo da vida e independentemente de dieta, peso ou atividade física. Estima-se que um em cada cinco adultos apresente níveis elevados, mas a maioria desconhece a condição, pois o painel lipídico tradicional — composto por colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos — foi desenvolvido com base em conhecimentos das décadas de 1960 e 1970 e não inclui esse marcador.
Diante desse cenário, o American College of Cardiology e a American Heart Association publicaram, em março de 2026, novas diretrizes que recomendam a medição da Lp(a) ao menos uma vez na vida de todo adulto. Valores acima de 125 nmol/L ou 50 mg/dL são classificados como elevados. A triagem precoce, entre 9 e 11 anos, é indicada para crianças com histórico familiar de doença cardíaca hereditária, derrame ou infarto precoce.
No Brasil, embora o exame esteja disponível em laboratórios, ele ainda não integra a rotina médica devido a formações clínicas baseadas em protocolos anteriores. Atualmente, não existe tratamento aprovado para a redução específica da Lp(a), mas a identificação do marcador permite que médicos adotem medidas preventivas mais rigorosas, como o controle agressivo do LDL, combate ao tabagismo e manejo rigoroso da diabetes e da pressão arterial.
A detecção precoce também prepara o caminho para terapias em desenvolvimento baseadas no silenciamento de RNA. O pelacarsen, um oligonucleotídeo antissenso, demonstrou reduções de até 80% da Lp(a) em testes clínicos, enquanto o olpasiran, baseado em siRNA, apresentou reduções superiores a 90% em estudos de fase II. Ambas as drogas aguardam etapas de validação e aprovação.