Novo medicamento para câncer de pâncreas dobra tempo de sobrevida de pacientes em estudo clínico
A Revolution Medicines desenvolveu o daraxonrasib, medicamento oral que inibe múltiplas variantes da proteína RAS. Em ensaio clínico de Fase 3 com 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, a droga reduziu o risco de morte em 60% e elevou a sobrevida mediana para 13,2 meses. O fármaco recebeu a designação de Breakthrough Therapy do FDA
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A empresa americana Revolution Medicines anunciou, em 13 de abril de 2026, o desenvolvimento do daraxonrasib, um medicamento capaz de atuar sobre a proteína RAS, alvo que era considerado intratável pela medicina. No câncer de pâncreas, a proteína RAS sofre mutações em mais de 90% dos casos, funcionando como um interruptor travado na posição "ligado", o que provoca o crescimento e a multiplicação celular descontrolados.
A eficácia da nova droga foi testada no ensaio clínico de Fase 3, denominado RASolute 302, com um grupo de aproximadamente 500 pacientes com doença avançada ou metastática que já haviam passado por quimioterapia. O estudo comparou o uso do daraxonrasib, administrado via comprimido diário, com a quimioterapia intravenosa padrão. Os resultados indicaram que a sobrevida mediana dos pacientes que utilizaram o medicamento foi de 13,2 meses, enquanto o grupo da quimioterapia registrou 6,7 meses. A análise demonstrou que o risco de morte foi reduzido em 60%, com a estabilidade ou resposta ao tratamento observada em 80% dos casos e a redução do tumor em um terço dos pacientes.
Diferente de tentativas anteriores, que focavam apenas na variante G12C da proteína, o daraxonrasib atua como um inibidor pan-RAS. Isso significa que ele consegue bloquear múltiplas variantes simultaneamente, incluindo as mais comuns no câncer de pâncreas, como G12D, G12V e G12R. Além da inovação no mecanismo, a administração oral do fármaco dispensa a necessidade de ida ao hospital para infusões. Os efeitos colaterais relatados, como fadiga, náuseas, mucosite e reações cutâneas, são considerados seguros sob acompanhamento médico.
O cenário do câncer de pâncreas é crítico: a doença raramente apresenta sintomas precoces e, nos Estados Unidos, cerca de 50 mil das 60 mil pessoas diagnosticadas anualmente vêm a óbito. No Brasil, ocorrem 13 mil novos diagnósticos por ano, com 12 mil mortes. Para casos metastáticos, a sobrevida em cinco anos é de apenas 3%.
Devido ao impacto dos resultados, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) concedeu ao daraxonrasib o status de Breakthrough Therapy, garantindo revisão acelerada, além da designação de medicamento órfão e a inclusão no programa National Priority Voucher. O FDA já autorizou o acesso compassional para pacientes sem outras alternativas terapêuticas, e os dados completos do estudo serão apresentados em junho de 2026, no congresso anual da American Society of Clinical Oncology.
Para que a terapia chegue ao Brasil, será necessária a aprovação da Anvisa e, no setor privado, a publicação de diretrizes técnicas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No sistema público, o desafio é financeiro, dado que o custo médio de novas drogas oncológicas no mercado americano é de cerca de R$ 50 mil mensais, enquanto o valor pago via Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade (APAC) para o tratamento do câncer de pâncreas é de aproximadamente R$ 1.986.
Apesar do avanço, o daraxonrasib não é classificado como cura. O estudo focou em pacientes em segunda linha de tratamento, e ainda não se sabe a eficácia da droga como primeira linha ou em outras configurações da doença. Pesquisas futuras devem avaliar a combinação do fármaco com imunoterapia e sua aplicação em outros tumores com mutação no RAS, como os de pulmão de células não pequenas e colorretais.