Ciência

Pequenas poças de degelo na Groenlândia absorvem mais calor do que estimavam os satélites

23 de Maio de 2026 às 18:07

Estudo publicado na Nature Communications em 2025 indica que pequenas acumulações de água na Groenlândia absorvem mais calor do que as estimativas orbitais previam. Imagens de drone revelaram que formações hídricas com menos de 100 m² representam mais de 50% da área de água de degelo na zona de ablação superior. A descoberta aponta que o efeito radiativo dessas poças e canais pode ser de três a quatro vezes superior ao calculado por satélites

Pequenas poças de degelo na Groenlândia absorvem mais calor do que estimavam os satélites
Estudo mostra que poças e rios de degelo na Groenlândia reduzem o albedo, aumentam a absorção de calor e podem acelerar a perda de gelo.

A presença de poças, rios e pequenos acúmulos de água de degelo sobre a camada de gelo da Groenlândia exerce um impacto maior na absorção de calor do que se estimava anteriormente. Um estudo publicado em 2025 na *Nature Communications* revelou que essas formações reduzem o albedo — a capacidade da superfície de refletir a luz solar —, o que aumenta a energia disponível para acelerar o derretimento do gelo.

Esse fenômeno, denominado feedback derretimento-albedo, torna a camada de gelo altamente sensível ao aquecimento do ar. Enquanto superfícies claras, como a neve fresca, refletem a radiação, a água líquida e o gelo antigo absorvem mais energia de onda curta. Assim, pequenos incrementos na temperatura podem gerar respostas desproporcionais à medida que a superfície escurece, criando um ciclo onde mais gelo derretido gera mais água, que por sua vez absorve mais calor.

A principal descoberta da pesquisa reside na dimensão dessas formações hídricas. Por meio de imagens de drone com resolução de 30 centímetros por pixel, cobrindo quase 300 km², os pesquisadores identificaram milhares de canais e poças com menos de 100 m². Na zona de ablação superior, essas pequenas feições representam mais de 50% da área total de água de degelo. Em um dos recortes analisados, formações com menos de 1.000 m² foram responsáveis por 63,6% da área de água acumulada.

Essa escala de detalhe é invisível para satélites de resolução média, que frequentemente ignoram cursos d'água estreitos e poças pequenas. Como resultado, o efeito radiativo real dessas formações pode ser de três a quatro vezes superior ao estimado por abordagens orbitais convencionais. Para chegar a esses dados, a equipe combinou mapas de água superficial e índices de albedo com medições de temperatura do ar e radiação solar descendente.

A subestimação desse processo impacta a precisão dos modelos climáticos. Atualmente, modelos acoplados de clima e camada de gelo não contabilizam explicitamente o acúmulo de água na superfície, o que pode levar a projeções de uma Groenlândia mais reflexiva do que a realidade durante períodos de degelo intenso. Os autores do estudo defendem a integração de modelos glacio-hidrológicos, que já são capazes de rotear e acumular água, para corrigir essa lacuna nas previsões de perda de massa.

O contexto é crítico, pois a região perde massa desde a década de 1990 e foi responsável por cerca de 20% da elevação global do nível do mar entre 2006 e 2018. Dados do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) corroboram a vulnerabilidade da região: em meados de julho de 2025, uma onda de calor provocou uma queda rápida na refletividade média do gelo, atingindo valores próximos aos recordes baixos do período entre 2017 e 2024.

O escurecimento da superfície, que pode ser causado pela exposição de gelo antigo, neve envelhecida ou processos biológicos, deixa a região mais suscetível a novos episódios de derretimento. A pesquisa indica que a soma de milhares de pequenas feições hídricas altera o balanço energético da camada de gelo, funcionando como um acelerador climático que pode modificar as estimativas sobre a velocidade da perda de gelo e a consequente elevação do nível do mar.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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