Ciência

Pesquisadores criam método que utiliza a própria força da atmosfera para redirecionar desastres climáticos

29 de Junho de 2026 às 06:42

Pesquisadores da Universidade Estadual de Arizona criaram o método "Weather Jiu-Jitsu" para redirecionar instabilidades atmosféricas e mitigar desastres climáticos. A técnica utiliza a teoria do caos, modelos de aprendizado profundo e anomalias de calor e umidade para alterar trajetórias e temperaturas de eventos extremos. Simulações indicaram a redução de impactos em casos como o furacão Sandy e a geada do Texas

Pesquisadores criam método que utiliza a própria força da atmosfera para redirecionar desastres climáticos
ESA

Pesquisadores da Universidade Estadual de Arizona desenvolveram um método para mitigar desastres climáticos chamado "Weather Jiu-Jitsu". A proposta, detalhada em artigo na revista *PLOS Water*, consiste em aplicar pequenas perturbações na atmosfera para redirecionar a instabilidade do sistema antes que eventos extremos atinjam áreas povoadas, utilizando a própria força do fluxo atmosférico para neutralizar ameaças.

A fundamentação do sistema baseia-se na teoria do caos de Edward Lorenz, que estabelece que sistemas atmosféricos são altamente sensíveis a condições iniciais. O projeto utiliza essa sensibilidade para intervir no clima por meio da combinação de duas ferramentas: os Exponentes de Lyapunov de Tempo Finito (FTLE), que identificam matematicamente os pontos de maior sensibilidade no fluxo do ar, e o Aurora, modelo de previsão meteorológica da Microsoft baseado em aprendizado profundo.

Na prática, a intervenção assemelha-se à semeadura de nuvens, introduzindo anomalias de calor e umidade — com variações térmicas entre 6,7 °C e 10,4 °C — em zonas estratégicas acima do fenômeno a ser modificado. A dinâmica natural da atmosfera amplifica essas alterações, exigindo um gasto energético inferior a 2% da energia total do sistema.

Testes em simulações demonstraram a eficácia da técnica em eventos históricos. No caso do furacão Sandy, perturbações realizadas sete dias antes do impacto desviaram a trajetória do ciclone em 322 quilômetros, evitando que Nova York fosse atingida. Em relação à geada do Texas em 2021, que resultou em mais de 200 mortes, 4,5 milhões de residências sem energia e prejuízos de 195 bilhões de dólares, as intervenções no bloqueio ártico reduziram a anomalia de temperatura mínima em cerca de 10 °C. Já nas inundações da Califórnia em 2022, uma perturbação direcionada ao rio atmosférico diminuiu o transporte de vapor em 5%.

A necessidade de novas abordagens surge diante da insuficiência de infraestruturas de contenção, como diques e barragens, e a limitação de seguros. Em 2024, eventos climáticos extremos geraram perdas globais de 417 bilhões de dólares, mas as seguradoras cobriram apenas 154 bilhões. Entre 1970 e 2019, os riscos hidrometeorológicos, incluindo secas e tempestades, foram responsáveis por 74% das perdas por desastres naturais.

Embora os resultados matemáticos sejam positivos, os autores ressaltam que os experimentos são testes de conceito e não garantias operacionais, pois controlar modelos não equivale a intervir na atmosfera real. A implementação enfrenta desafios técnicos, como a necessidade de monitoramento via satélite, drones de medição e assimilação de dados em tempo real.

Há também entraves políticos e jurídicos, visto que intervenções que cruzam fronteiras nacionais demandam acordos sobre responsabilidade e consentimento. A Convenção de Modificação Ambiental da ONU é vista como um caminho possível, embora exija adaptações. Países como China, Japão e Emirados Árabes Unidos já possuem programas de modificação meteorológica, como a supressão de granizo e a semeadura de nuvens.

Para viabilizar a tecnologia, os pesquisadores sugerem um cronograma em três etapas: inicialmente, a realização de experimentos controlados com aprendizado profundo sobre eventos passados; em seguida, a criação de pilotos regionais e estruturas de governança junto ao PNUMA e à OMM; e, por fim, a execução de projetos operacionais limitados sob supervisão internacional.

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