Pesquisadores identificam primeira ocorrência de bactéria resistente a antibióticos em ostras comercializadas no Brasil
Pesquisadores da USP e do Instituto de Pesca de São Paulo detectaram a bactéria Citrobacter telavivensis em ostras vendidas em São Paulo e Santa Catarina, primeiro registro do microrganismo em alimentos no Brasil. O estudo identificou ainda Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae resistentes a antibióticos, além de arsênio acima do limite da Anvisa em 35% das amostras
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Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesca de São Paulo identificaram, em agosto de 2025, a presença da bactéria *Citrobacter telavivensis* em ostras frescas comercializadas em mercados de São Paulo e Santa Catarina. Este é o primeiro registro do microrganismo em alimentos no Brasil. A bactéria é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como de prioridade crítica devido à sua resistência a antibióticos.
O estudo revelou que as amostras de ostras, animais filtradores que retêm vírus, metais pesados e resíduos de medicamentos do ambiente, também continham cepas de *Escherichia coli* e *Klebsiella pneumoniae* resistentes a antibióticos de última geração. Além disso, 35% das amostras apresentaram níveis de arsênio acima do limite máximo permitido pela Anvisa. Os cientistas observaram um processo de co-seleção, no qual a poluição por arsênio e resíduos de antibióticos na água atua como uma estufa, selecionando bactérias tolerantes a ambos os agentes.
Apesar da presença desses patógenos, as amostras não foram reprovadas nos testes de inspeção sanitária vigentes. Atualmente, sistemas de controle como o HACCP, APPCC e as Boas Práticas de Fabricação monitoram temperatura, higiene e a ausência de patógenos específicos, como *Listeria* e *Salmonella*, mas não verificam o perfil de resistência antimicrobiana. Isso permite que lotes contendo superbactérias, como o *Staphylococcus aureus* resistente à meticilina, sejam liberados para consumo se a contagem total de microrganismos estiver dentro da norma.
A complexidade do cenário aumenta com a formação de biofilmes em equipamentos e tubulações de plantas de processamento. Nessas comunidades encapsuladas, as bactérias tornam-se entre cem e mil vezes mais resistentes a antibióticos e a sanitizantes químicos. Como alternativa, uma pesquisa de 2023 publicada no periódico *Bioscience, Biotechnology, and Biochemistry*, com a equipe da professora Fernanda Sampaio Cavalcante (UFRJ-Macaé), demonstrou que a lugdulisina — enzima produzida pela bactéria *Staphylococcus lugdunensis* — consegue degradar a matriz proteica de biofilmes do *Staphylococcus aureus* resistente à meticilina, tornando-os vulneráveis em ambiente laboratorial.
Globalmente, a resistência antimicrobiana é listada pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde. O relatório GLASS, de outubro de 2025, indicou que uma em cada seis infecções bacterianas registradas entre 2018 e 2023 era resistente a antibióticos, um crescimento superior a 40%. Em maio de 2025, a Assembleia Mundial de Saúde aprovou um Plano Global de Ação para 2026–2036, alertando que a ausência de intervenções pode levar a 39 milhões de mortes anuais por superbactérias até 2050, volume que superaria as projeções de mortalidade por câncer.
No Brasil, o Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito Agropecuário, implementado pelo Ministério da Agricultura em 2023, monitora a *Salmonella* em bovinos, suínos e aves, mas exclui peixes e moluscos. A falta de atualização nos protocolos de qualidade e a ausência de vigilância no pescado representam riscos à saúde pública e à economia, podendo comprometer exportações para mercados rigorosos, como Estados Unidos e União Europeia.