Ciência

Pesquisadores reanimam vírus de 48,5 mil anos extraído de solo congelado na Rússia

26 de Maio de 2026 às 06:15

Pesquisadores da Universidade de Aix-Marseille reanimaram 13 patógenos de solos congelados da Rússia, incluindo um vírus de 48,5 mil anos. Os microrganismos, isolados de materiais da última Era Glacial, mantiveram a capacidade de infectar outros organismos. O estudo foi publicado na revista Viruses

Pesquisadores reanimam vírus de 48,5 mil anos extraído de solo congelado na Rússia
Vírus de 48.500 anos foi reanimado do permafrost da Sibéria e ainda infecta organismos. Patógenos congelados ameaçam humanos, animais e plantações.

Pesquisadores da Universidade de Aix-Marseille, na França, reanimaram em laboratório 13 patógenos extraídos de amostras de solo permanentemente congelado no extremo leste da Rússia, incluindo um vírus com 48,5 mil anos. O organismo estava inativo desde a época dos neandertais na Europa, mas manteve a capacidade de infectar outros organismos, evidenciando que o permafrost atua como uma cápsula do tempo biológica capaz de preservar vírus viáveis por dezenas de milênios.

O estudo, publicado na revista *Viruses*, detalha que esses microrganismos foram isolados de materiais biológicos preservados desde a última Era Glacial, como o conteúdo estomacal de um lobo siberiano e fezes de um mamute de 27 mil anos. A diversidade das espécies recuperadas — que incluem os vírus *Pithovirus mammoth*, *Pandoravirus mammoth*, *Megavirus mammoth*, *Pacmanvirus lupus* e *Pandoravirus lupus* — revela a existência de um ecossistema microbiológico completo congelado junto aos animais.

A descoberta acende um alerta sobre o degelo acelerado do permafrost provocado pelas mudanças climáticas. Como o aquecimento global ocorre em taxas superiores às previsões de modelos climáticos de dez anos atrás, camadas cada vez mais profundas do solo, que cobre cerca de 25% do Hemisfério Norte, estão sendo expostas. Isso pode liberar patógenos para os quais a humanidade não possui registro imunológico. Embora não seja possível prever a probabilidade de encontro com um hospedeiro ou o tempo de infecciosidade desses vírus ao serem expostos ao ambiente externo, a equipe de Aix-Marseille afirma que o risco é crescente.

A viabilidade de patógenos antigos já manifestou consequências reais. Em 2016, na Península de Yamal, na Sibéria, uma onda de calor descongelou a carcaça de uma rena infectada com a bactéria do antraz. O evento resultou na morte de uma criança, na hospitalização de diversas pessoas e no abate de mais de 200 mil renas. Apesar de alguns cientistas atribuírem o surto à baixa vacinação do rebanho, o episódio exemplifica o cenário de risco que a reanimação de vírus milenares busca antecipar.

A ameaça estende-se também à agricultura. No Alasca, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Polar da Coreia observaram que a bactéria *Pseudomonas*, responsável pela podridão mole da batata, proliferou rapidamente após 90 dias de degelo de amostras da Península de Seward, transformando tubérculos em massa viscosa. Adicionalmente, núcleos de gelo da Groenlândia com até 140 mil anos continham o vírus do mosaico do tomate, capaz de infectar beterraba, alface, pimentas, pepinos e tomates. O risco é agravado pelo fato de que o aquecimento global tem atraído agricultores para cultivar em solos recém-descongelados no Ártico.

Além do risco biológico, o permafrost armazena volumes massivos de metano e carbono, cujas liberações contribuem para o ciclo de aquecimento. A reanimação de um vírus de 48,5 mil anos confirma que a capacidade infecciosa pode sobreviver a períodos geológicos inteiros, levantando questionamentos sobre quais outros organismos permanecem ocultos em camadas ainda não atingidas pelo degelo.

Notícias Relacionadas