Pesquisadores utilizam telescópios James Webb e VLT para analisar a presença de água em exoplanetas
O projeto THIRSTEE, liderado por Rafael Luque Ramírez no Instituto de Astrofísica da Andaluzia, utiliza os telescópios James Webb e Very Large Telescope para analisar a composição atmosférica de subneptunos. A pesquisa busca identificar a presença de água e a origem de gases em planetas oceânicos para avaliar a possibilidade de vida extraterrestre
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A identificação de água em corpos celestes é o principal indicador para a busca de vida extraterrestre. Nesse cenário, a confirmação da existência de "mundos aquáticos" ou planetas oceânicos — onde a água pode representar até 50% da composição e estar submersa, em vez de apenas em rios e lagos superficiais — torna-se fundamental para compreender a formação planetária e a possibilidade de vida fora da Terra.
A hipótese sobre esses planetas era teorizada há duas décadas, mas evidências concretas surgiram apenas há quatro anos, validadas por pesquisadores espanhóis, entre eles Rafael Luque Ramírez. Atualmente pesquisador Ramón y Cajal no Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC), Luque é especialista na detecção de exoplanetas, especialmente os subneptunos. Estes, que possuem dimensões intermediárias entre a Terra e Netuno, são a tipologia mais comum fora do nosso sistema solar, estando presentes em pelo menos metade das estrelas semelhantes ao Sol.
A probabilidade de encontrar vida aumenta conforme a abundância desses mundos aquáticos. Luque observou que tais planetas são frequentes em anãs vermelhas, estrelas menores que o Sol. Além disso, estima-se que entre 1% e 10% das estrelas do tipo solar possuam planetas semelhantes à Terra com água líquida; considerando que existem cerca de 1 bilhão de estrelas desse tipo na galáxia, o cálculo sugere a existência de milhões de planetas com condições aptas para a vida.
Para analisar a composição atmosférica desses subneptunos e deduzir a presença de água, o projeto THIRSTEE, liderado por Luque no IAA-CSIC, utiliza a precisão do telescópio espacial James Webb e do Very Large Telescope (VLT), no Chile. O grupo de pesquisa obteve a aprovação de 200 horas de observação com o James Webb e 300 horas com o VLT. O trabalho consiste em inferir se o equilíbrio químico da atmosfera é resultado de atividade vulcânica, gases capturados na formação do planeta ou processos biológicos.
A análise envolve uma equipe multidisciplinar de astrofísicos, biólogos, químicos e geoquímicos. Embora as chances de vida biológica sejam consideradas altas, a detecção de inteligência humana é mais complexa devido à escala temporal. Luque argumenta que a espécie humana ocupa um período curtíssimo na história terrestre, marcada por cinco grandes extinções. Por isso, a pesquisa trabalha com modelos de atmosferas terrestres anteriores ao surgimento do homem, prevendo que, caso a vida extraterrestre seja encontrada, ela provavelmente estará em um estágio anterior ao desenvolvimento da inteligência.
O pesquisador, que já publicou mais de 180 artigos e atuou como Sagan Fellow da NASA na Universidade de Chicago, foi laureado com o Prêmio Princesa de Girona de Pesquisa em 2026 por sua originalidade e impacto científico. Ao longo de sua trajetória, Luque recebeu mais de 2,7 milhões de euros em financiamento, incluindo uma Starting Grant do Conselho Europeu de Pesquisa.
O cientista defende que o investimento em astronomia gera retornos diretos para a sociedade através do desenvolvimento de novas tecnologias em óptica, satélites, sensores e armazenamento de dados. Como exemplo, cita que os chips de câmeras digitais e de smartphones derivam de necessidades astronômicas de capturar imagens da galáxia. Além disso, ressalta que a observação espacial da Terra foi determinante para a criação de tratados ambientais ao evidenciar o aquecimento global e a destruição da camada de ozônio.