Pessoas mais criativas superam a inteligência artificial em tarefas de divergência linguística, aponta estudo
Estudo da Université de Montréal e do instituto Mila indica que pessoas altamente criativas superam modelos de IA em tarefas de divergência linguística. A pesquisa aponta que a superioridade humana reside na intenção e na capacidade de evitar a homogeneização de ideias. O trabalho define a IA como colaboradora na exploração de possibilidades, enquanto o humano mantém o julgamento crítico
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Um estudo abrangente publicado na revista *Scientific Reports* em janeiro de 2026, conduzido por pesquisadores da Université de Montréal e do instituto Mila, com a colaboração de Yoshua Bengio, trouxe novos dados sobre a relação entre a criatividade humana e a inteligência artificial. A análise, que avaliou mais de cem mil pessoas e comparou seus desempenhos com modelos como Gemini, Claude e ChatGPT, revelou que, embora a IA já supere a média humana em tarefas de divergência linguística, os indivíduos mais criativos continuam a apresentar resultados superiores aos dos sistemas artificiais.
A pesquisa fundamenta a compreensão da criatividade não como a invenção de algo do zero, mas como a capacidade de gerar o novo a partir de elementos conhecidos. Esse processo é descrito pela ciência cognitiva contemporânea como pensamento associativo, caracterizado pela habilidade de conectar regiões distantes da memória semântica. Tecnicamente, essa capacidade pode ser quantificada por meio de testes de associação divergente, que medem a amplitude do território semântico que uma pessoa consegue abranger.
Essa lógica de conexão também é a base do funcionamento dos modelos de linguagem, que operam transformando conceitos em pontos dentro de um espaço vetorial multidimensional, realizando operações geométricas para interpolar informações. Exemplos históricos reforçam essa tese: Johannes Gutenberg utilizou a tinta, o papel e a prensa de parafuso — tecnologias já existentes — para criar o sistema de impressão; da mesma forma, os irmãos Wright combinaram conhecimentos de motores e mecânica para viabilizar o voo controlado.
Entretanto, o estudo aponta que a superioridade do topo da pirâmide criativa humana reside na intenção. Enquanto a máquina processa combinações de dados, a criação humana é impulsionada por propósitos, como a busca por resolver problemas, a expressão de sentimentos ou a obsessão por compreender a realidade, a exemplo de Einstein em suas teorias, Frida Kahlo em suas pinturas ou Beethoven em suas composições.
Outro fator técnico que limita a IA é a tendência à homogeneização, fenômeno documentado em pesquisas de 2025 e 2026 como "colapso de modos". Como os modelos são treinados para evitar respostas improváveis e se ajustarem à distribuição de dados existentes, eles tendem a convergir para um núcleo estreito de ideias. Isso gera um paradoxo: a ferramenta melhora o resultado individual, mas torna a produção coletiva mais semelhante, erodindo a diversidade que caracteriza os mentes mais inovadoras.
Diante desse cenário, a função do profissional criativo é redefinida. A inteligência artificial deixa de ser apenas um gerador de conteúdo para atuar como um colaborador que explora vastos espaços de possibilidades em curto tempo. Nesse modelo de arquitetura composta, a máquina oferece a amplitude do território, enquanto o ser humano retém as funções essenciais de formular a pergunta, exercer o julgamento crítico e atribuir significado ao resultado final.