Poços irregulares em áreas industriais contaminadas elevam risco sanitário na Região Metropolitana de São Paulo
A Região Metropolitana de São Paulo possui cerca de 14 mil poços privados, dos quais dois terços são irregulares. A extração de água em antigas zonas industriais apresenta risco de contaminação por solventes clorados em 17 aglomerações, incluindo bairros como Mooca e Jurubatuba
A Região Metropolitana de São Paulo, que abriga 22 milhões de habitantes e consome, em média, 61.600 litros de água por segundo, enfrenta um risco sanitário invisível devido à proliferação de poços irregulares em áreas com passivos ambientais. Embora o abastecimento público dependa majoritariamente de mananciais superficiais, cerca de 18% do consumo total da região provém de aquíferos, volume que atinge 347 milhões de metros cúbicos anualmente. Essa captação é realizada por aproximadamente 14 mil poços privados, dos quais dois terços não possuem cadastro formal.
A ausência de controle governamental sobre essas extrações é agravada pelo fato de muitos poços terem sido perfurados em antigas zonas industriais. Essas áreas, que passaram por processos de desindustrialização e reconversão imobiliária desde o final dos anos 1970, mantêm resíduos no subsolo que podem comprometer a água utilizada para consumo humano. O perigo central reside nos solventes clorados, como o tricloroetileno e o percloroetileno, substâncias altamente tóxicas anteriormente utilizadas como desengraxantes na limpeza de peças metálicas.
Diferente dos hidrocarbonetos de postos de gasolina, que se degradam com maior rapidez, os solventes clorados persistem por longos períodos no ambiente subterrâneo e podem gerar compostos derivados ainda mais tóxicos. O bombeamento de água em profundidade intensifica o problema ao criar um gradiente hidráulico descendente, que pode transportar contaminantes para camadas mais baixas do aquífero. Embora camadas geológicas menos permeáveis possam atuar como filtros, a eficácia dessa barreira natural ao longo de décadas é incerta, especialmente considerando que o limite de potabilidade é medido em partes por bilhão.
Um estudo que cruzou dados de zonas industriais, áreas contaminadas e poços de abastecimento revelou que essas três dimensões coincidem frequentemente no mesmo território. O bairro da Mooca exemplifica a situação, com mapas que mostram captações sobrepostas a locais contaminados ou em áreas onde a extração não deveria ocorrer. Como os poços irregulares não constam nos registros oficiais, a dimensão real do risco tende a ser superior à registrada.
A legislação paulista exige que responsáveis por áreas contaminadas apresentem relatórios de qualidade da água caso haja um poço em um raio de 500 metros. Com base nesse critério, foram identificadas 17 aglomerações de áreas contaminadas com raios sobrepostos a poços em regiões como Jurubatuba, Jaguaré, Mooca, Vila Prudente, Diadema, Mauá e Osasco. Nesses locais, plumas de contaminação podem se interceptar, formando fontes multiponto que atingem poços profundos usados para ingestão humana.
A gestão desses riscos é dificultada porque a remediação costuma ser limitada ao perímetro de cada propriedade, enquanto a água subterrânea circula além das fronteiras imobiliárias. Frequentemente, remove-se apenas o solo superficial para evitar a inalação de vapores tóxicos em edificações, mas a maior parte da massa contaminante permanece em profundidade.
No cadastro paulista, existem 596 áreas com histórico de uso de solventes clorados. Até 2020, apenas 18,6% desses locais eram classificados como reabilitados para o uso declarado, termo que não implica a eliminação total da contaminação. Atualmente, mais da metade dessas áreas segue em processo de remediação e 26% permanecem sob investigação.
Em Jurubatuba, a área mais estudada da região metropolitana, três quartos dos sítios locais não possuem informações detalhadas nos cadastros ambientais, sendo que metade deles corresponde a indústrias com uso documentado de solventes clorados. A SP Águas informou a realização de estudos hidrogeológicos na região para aprimorar a gestão, unificar bancos de dados e compreender o transporte de contaminantes. A Cetesb não se manifestou sobre o tema.
A persistência de poços irregulares permanece como o fator determinante para dimensionar a magnitude do problema e orientar medidas de longo prazo para impedir o uso de água subterrânea em áreas críticas.