Poluição do ar em São Paulo aumenta risco de internações por doenças renais, indica estudo
Estudo publicado na Scientific Reports indica que a poluição por material particulado fino em São Paulo eleva o risco de internações por doenças renais. A pesquisa da USP analisou dados entre 2011 e 2021, registrando concentrações de PM2.5 quatro vezes superiores ao limite da OMS

A poluição atmosférica em São Paulo está diretamente ligada ao aumento do risco de internações por doenças renais, conforme aponta estudo publicado na revista Scientific Reports em 16 de fevereiro. A pesquisa, apoiada pela Fapesp, analisou dados entre 2011 e 2021 e identificou concentrações de material particulado fino (PM2.5) que atingiram 65 μg/m³, valor quatro vezes superior ao limite diário de 15 μg/m³ recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O material particulado fino é composto por partículas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, originadas principalmente da queima de combustíveis fósseis em veículos. Devido ao tamanho reduzido, essas partículas penetram profundamente no organismo, alcançam a corrente sanguínea e atingem os tecidos renais. A reação do corpo ao tentar combater esse material estranho desencadeia processos inflamatórios silenciosos que, com a exposição contínua, podem acelerar o desenvolvimento de insuficiência renal crônica e glomerulopatias, que afetam as estruturas de filtragem do sangue nos rins.
A investigação, coordenada pela professora Lucia Andrade, da Faculdade de Medicina da USP, e com a participação da pesquisadora Iara da Silva e de especialistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), revelou que a associação com problemas renais ocorre mesmo em níveis de poluição considerados aceitáveis pela OMS. Como as doenças renais evoluem lentamente e raramente apresentam sinais claros nos estágios iniciais, a poluição urbana atua como um fator agravante invisível. Em quadros graves, a progressão da doença pode levar a pacientes dependentes de hemodiálise ou aguardando transplantes.
Para fundamentar a análise de dados hospitalares, a equipe realizou testes experimentais com camundongos. Um grupo foi exposto ao ar poluído da capital paulista, enquanto outro respirou o mesmo ar após filtragem completa. Os animais expostos ao material particulado apresentaram quadros renais severos, com morte celular, aumento de inflamações, perda da função de filtragem, maior fibrose e sinais de envelhecimento precoce dos tecidos.
Esses achados integram o projeto “A poluição do ar é o motor do envelhecimento renal prematuro”, financiado pela Fapesp e pela Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO). A linha de pesquisa se conecta ao projeto Metroclima Masp, coordenado por Maria de Fátima Andrade no IAG-USP, que estuda a qualidade do ar e as mudanças climáticas na Região Metropolitana de São Paulo.
O avanço dessas patologias impacta a qualidade de vida da população e eleva os custos da saúde pública, dado que tratamentos renais exigem medicamentos caros e acompanhamento contínuo. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a implementação de políticas rígidas de controle da poluição, com foco na redução da dependência de combustíveis fósseis e no incentivo ao transporte sustentável, tratando a qualidade do ar como uma estratégia essencial de prevenção em saúde pública.