Ciência

Radiotelescópios na Espanha detectam açúcar simples pela primeira vez no meio interestelar da Via Láctea

15 de Julho de 2026 às 06:13

Radiotelescópios na Espanha detectaram eritrolusa, um açúcar simples, na nuvem molecular G+0.693-0.027, próxima ao centro da Via Láctea. O estudo, publicado na Nature Astronomy, identificou 12 linhas espectrais da molécula, que se mostrou oito vezes mais abundante que açúcares menores

Radiotelescópios na Espanha detectam açúcar simples pela primeira vez no meio interestelar da Via Láctea
Ashley Barnes/Izaskun Jiménez-Serra/Juan García de la Concepción

Radiotelescópios localizados na Espanha detectaram a presença de eritrolusa, um açúcar simples, em uma região próxima ao centro da Via Láctea. A descoberta, detalhada em estudo na revista Nature Astronomy, marca a primeira vez que um açúcar é identificado diretamente no meio interestelar, fornecendo evidências sobre a complexidade molecular que precede a formação de estrelas e planetas.

A análise focou na nuvem molecular G+0.693-0.027, área reconhecida por possuir um dos inventários químicos mais diversificados da galáxia. Para isso, foi utilizada a infraestrutura do Observatório de Yebes, em Guadalajara, com seu radiotelescópio de 40 metros, e o instrumento de 30 metros do Instituto de Radioastronomia Milimétrica, situado no Pico Veleta, em Granada.

Metodologia de identificação

A confirmação da molécula, conduzida por uma equipe internacional liderada pelo Centro de Astrobiologia (parceria entre CSIC e INTA), não dependeu de um único dado. Os pesquisadores localizaram 12 linhas espectrais independentes que correspondiam à assinatura rotacional da eritrolusa, previamente medida em laboratório na Universidade do País Vasco. Esse rigor técnico permitiu excluir outras moléculas e validar a detecção.

A eritrolusa é composta por quatro átomos de carbono e é encontrada naturalmente em frutas vermelhas, como framboesas, além de ter aplicação na indústria de cosméticos.

Quebra de paradigmas na astroquímica

Os dados revelaram que a eritrolusa é, no mínimo, oito vezes mais abundante que a dihidroxiacetona e o gliceraldeído, açúcares menores formados por apenas três átomos de carbono. O achado contraria a teoria predominante na astroquímica, que sugere que as moléculas interestelares crescem gradualmente através da adição consecutiva de carbonos.

Para explicar essa abundância, pesquisadores das universidades de Radboud e Extremadura propuseram que a eritrolusa se origina em grãos de poeira cobertos de gelo interestelar, resultantes de reações entre aldeídos e álcoois simples. Esse processo demonstra que moléculas orgânicas complexas conseguem se desenvolver mesmo nas nuvens frias onde futuros sistemas planetários serão formados.

Impacto na origem da vida

A pesquisa estima que a Terra tenha recebido entre 0,5 e 50 milhões de toneladas de eritrolusa durante o Bombardeamento Intenso Tardio, período ocorrido entre 4.100 e 3.800 milhões de anos atrás.

De acordo com Carlos Briones, coautor do estudo, a detecção desse açúcar abre caminho para a busca de moléculas ainda maiores e essenciais para a vida, como a ribose, componente fundamental do RNA, no ambiente interestelar. Até então, compostos como a glicose e a ribose haviam sido encontrados apenas em asteroides e meteoritos.

Com informações de El Confidencial

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