Ciência

Recuperação de vegetação com oliveiras e trufas busca regular o ciclo hídrico no norte de Valência

03 de Julho de 2026 às 06:28

O Basque Centre for Climate Change e parceiros estudam a recuperação da vegetação no vale do rio Palancia para regular o ciclo hídrico. A estratégia utiliza o plantio de oliveiras com trufas para viabilizar economicamente a restauração ambiental e mitigar chuvas extremas. O projeto inclui simulações digitais em 3D para orientar agricultores e gestores sobre o uso do solo

Recuperação de vegetação com oliveiras e trufas busca regular o ciclo hídrico no norte de Valência
TBA21

A recuperação da vegetação no vale do rio Palancia, no norte de Valência, está sendo estudada como uma estratégia para regular o ciclo hídrico e mitigar a intensidade de chuvas extremas no Mediterrâneo. A iniciativa, desenvolvida pelo Basque Centre for Climate Change (BC3) em parceria com a TBA21–Academy e o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, integra o programa artístico-científico Organismo e propõe a criação de "jardins de nuvens".

O conceito baseia-se na evapotranspiração: o plantio de árvores libera vapor de água na atmosfera de maneira gradual, o que favorece a ocorrência de chuvas mais regulares e menos agressivas durante o verão. A ausência de cobertura vegetal, causada pelo desmatamento para a plantação de cereais, alterou o ciclo natural da água e deixou o solo exposto, transformando precipitações suaves em fenômenos destrutivos. Esse cenário é agravado pelo aquecimento global e pelo aumento recorde da temperatura da superfície dos oceanos, conforme dados do Serviço de Mudanças Climáticas do Copernicus (C3S) e do Serviço de Monitoramento Marinho (CMEMS), que injetam mais energia nas tempestades e elevam a evaporação.

Nesse contexto, as oliveiras cultivadas com trufas surgem como uma ferramenta de engenharia ambiental sustentável. Embora qualquer vegetação contribua para a regulação climática, a introdução artificial de trufas — por meio da tecnologia de micorrização, que une esporos do fungo às raízes das árvores — oferece viabilidade econômica para a recuperação de áreas abandonadas. A simbiose beneficia ambos: o fungo melhora a absorção de nutrientes e água, enquanto a árvore fornece açúcares. Além de atrair chuvas, as raízes fixam o solo e as copas retardam inundações e a erosão, evitando a perda de toneladas de terra, como observado durante a tempestade "dana" em 2024.

A pesquisa, detalhada no estudo "How Climate Imaginaries Come to Matter", foca na bacia hidrográfica do rio Palancia, abrangendo a zona úmida de Marjal dels Moros e as serras Calderona e Espadà. Para viabilizar a adesão de agricultores e gestores, o projeto desenvolveu um protótipo de simulação digital em 3D, com estética semelhante ao jogo Minecraft, sob consultoria do Royal College of Art. A plataforma permite que regantes, municípios e agentes industriais visualizem como diferentes decisões de uso do solo impactam o ecossistema e a estabilidade do ciclo da água.

A implementação dessas plantações já ocorre na região há cerca de duas décadas, com destaque para o pioneirismo de Castellón. Empresas como os Viveros Alto Palancia especializam-se na produção de oliveiras (*Quercus ilex*), além de outras espécies como o carrasco, a coscoja e a avelã. A estratégia busca transformar a rentabilidade do "diamante negro" em um motor para a resiliência climática, conectando o interesse econômico do produtor rural à necessidade de estabilizar o regime de chuvas no oeste do Mediterrâneo.

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