Ciência

Refúgio em zonas abissais permitiu que polvos e sepiais sobrevivessem ao impacto do meteorito Chicxulub

04 de Junho de 2026 às 15:21

Polvos e sepiais sobreviveram ao impacto do meteorito Chicxulub ao se refugiarem em zonas abissais e no nicho bentônico. Pesquisa do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa e do Instituto Espanhol de Oceanografia, publicada na Nature Ecology & Evolution, utilizou sequenciamento genômico e registros fósseis para a descoberta. O estudo aponta que a perda da concha externa e a evolução do sistema nervoso foram determinantes para a adaptação desses cefalópodes

Refúgio em zonas abissais permitiu que polvos e sepiais sobrevivessem ao impacto do meteorito Chicxulub
Sepia

A sobrevivência de polvos e sepiais ao impacto do meteorito Chicxulub, evento que extinguiu os dinossauros, foi viabilizada por uma estratégia de refúgio nas zonas abissais e no nicho bentônico. Enquanto a superfície terrestre enfrentava temperaturas extremas e as águas rasas sofriam com a acidificação, esses cefalópodes utilizaram a profundidade dos oceanos como escudo contra a destruição e a ruptura da cadeia alimentar superficial.

A descoberta foi resultado de uma pesquisa global coordenada pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST), com a colaboração do Instituto Espanhol de Oceanografia (IEO). Publicado na revista *Nature Ecology & Evolution*, o estudo utilizou sequenciamento de três novos genomas de polvos, incluindo o da espécie *Spirula spirula*, além de técnicas de transcriptômica e análise de registros fósseis. Os dados revelaram que a divergência desses grupos ocorreu cerca de 100 milhões de anos antes da extinção do Cretáceo-Paleógeno (K-Pg), permitindo o acúmulo de ferramentas genéticas essenciais antes mesmo da catástrofe.

Diferente de outros grupos biológicos que se diversificam rapidamente após mudanças ambientais, os polvos apresentaram um padrão de evolução lento, caracterizado por um longo período de estabilidade nas profundezas. Essa estagnação evolutiva temporária permitiu que a expansão para recifes de coral e novos nichos ecológicos ocorresse apenas quando as águas superficiais recuperaram o equilíbrio e a toxicidade normal.

Um fator determinante para o sucesso desses invertebrados foi a transformação morfológica marcada pela perda da concha externa rígida. Para ganhar velocidade nos ecossistemas pós-extinção, os sepiais desenvolveram o osso macio e os polvos adotaram o "gladio" ou "pluma", estruturas internas leves que otimizaram a propulsão a jato e as manobras evasivas.

A ausência de proteção externa forçou a evolução de mecanismos compensatórios para a sobrevivência diante de predadores. Essa pressão resultou em um sistema nervoso central sofisticado, capaz de processar estímulos visuais rápidos e coordenar movimentos musculares precisos. Como consequência, esses animais desenvolveram olhos adaptados à escuridão, musculatura hiperespecializada e um sistema de camuflagem baseado em cromatóforos epidérmicos ativos.

O caminho evolutivo dos polvos e sepiais contrasta com o do nautilo, que também sobreviveu à extinção do Cretáceo. O nautilo manteve a concha externa protetora, o que garantiu sua integridade física, mas limitou severamente sua evolução e a ocupação de novos nichos. Em contrapartida, a plasticidade genética e a reorganização do DNA regulatório dos cefalópodes de corpo macio consolidaram sua complexidade cognitiva e adaptabilidade às crises ambientais severas.

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