Ciência

Robô submarino recupera comunicação e fornece dados inéditos sobre plataformas de gelo na Antártida

16 de Maio de 2026 às 09:10

Um robô submarino do programa Argo retomou a comunicação após oito meses de deriva sob as plataformas de gelo Denman e Shackleton, na Antártida oriental. O dispositivo coletou dados de temperatura, salinidade e pressão, registrando o primeiro percurso completo sob essas estruturas. As medições, publicadas na Science Advances, indicam a entrada de água temperada no glaciar Denman

Robô submarino recupera comunicação e fornece dados inéditos sobre plataformas de gelo na Antártida
Australian Antarctic Division/Pete Harmsen

Um robô submarino do programa internacional Argo recuperou a comunicação com a superfície após oito meses de deriva sob as plataformas de gelo de Denman e Shackleton, na região oriental da Antártida. O dispositivo, que operava há mais de dois anos e meio em correntes extremamente frias, coletou medições inéditas sobre temperatura, salinidade, pressão, oxigênio, pH e nitratos, fornecendo dados essenciais para compreender a vulnerabilidade do gelo e o potencial aumento do nível do mar.

A missão atingiu um ponto crítico quando o veículo autônomo ficou preso sob as plataformas, o que impossibilitou o envio de informações via satélite. Mesmo sem conexão, o aparelho manteve a coleta de perfis oceanográficos a cada cinco dias, registrando a coluna d'água desde o fundo do mar até a base do gelo. Esse processo resultou no primeiro percurso completo realizado sob uma plataforma da Antártida oriental, permitindo o refino de modelos climáticos sobre a evolução do sistema polar.

Os dados revelam comportamentos distintos entre as estruturas analisadas. A plataforma de Shackleton demonstra maior estabilidade, pois não há exposição a águas com temperatura elevada que acelerem o derretimento basal. Já o glaciar Denman apresenta a entrada de água temperada em sua estrutura. Como a transferência de calor entre o oceano e o gelo ocorre em uma camada estreita de apenas 10 metros, pequenas variações na espessura dessa zona quente podem intensificar o derretimento e provocar um retrocesso instável do gelo.

Para localizar as medições feitas durante o período de silêncio, pesquisadores do CSIRO e do Australian Antarctic Program Partnership utilizaram um método indireto. A equipe comparou a profundidade do gelo registrada pelo robô no momento do contato com a base gelada com imagens de satélite, reconstruindo a rota exata do dispositivo.

O estudo, publicado na revista Science Advances, indica que a utilização de ferramentas autônomas é a única via para monitorar esses ambientes remotos. Steve Rintoul destacou que a obtenção desses dados seria impossível por métodos tradicionais e que a ampliação do número de boias na plataforma continental antártica elevaria a compreensão sobre a vulnerabilidade da região. A professora Delphine Lannuzel reforçou que a capacidade de um instrumento pequeno coletar tais informações em uma área tão vasta permitirá avaliar a estabilidade das plataformas orientais e antecipar riscos para zonas costeiras habitadas.

Com informações de El Confidencial

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