Ciência

Satélite Smile entra em órbita para monitorar a interação do vento solar com a Terra

19 de Maio de 2026 às 06:37

O satélite Smile, parceria entre a Agência Espacial Europeia e a Academia Chinesa de Ciências, foi lançado por um foguete Vega-C na Guiana Francesa. A missão monitorará a magnetosfera terrestre e as auroras por três anos, utilizando instrumentos de raios X, ultravioleta, analisador de íons e magnetômetro

Satélite Smile entra em órbita para monitorar a interação do vento solar com a Terra
ESA/S. Corvaja

O satélite Smile, fruto de uma parceria entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências (CAS), entrou em órbita após ser lançado por um foguete Vega-C em Kourou, na Guiana Francesa. O veículo de 35 metros e 210 toneladas partiu às 05h52, liberando a sonda quatro minutos após a decolagem. A separação definitiva do foguete ocorreu quase uma hora depois, posicionando o satélite a mais de 700 quilômetros de altitude, momento em que seus painéis solares foram ativados.

A missão tem como objetivo central monitorar a magnetosfera, a "bolha" magnética que protege a Terra do vento solar — um fluxo constante de plasma e partículas energéticas emitidas pelo Sol. Como a atividade solar segue ciclos de aproximadamente 11 anos e o planeta atravessa atualmente um período de alta intensidade, a coleta de dados torna-se crucial. Erupções solares massivas podem desencadear tempestades geomagnéticas capazes de colapsar infraestruturas críticas, provocando apagões generalizados, danos a satélites e interrupções em sistemas de navegação e telecomunicações.

Um precedente histórico desse risco é o evento Carrington de 1859, que afetou telégrafos e tornou auroras visíveis em Cuba. Atualmente, a dependência tecnológica tornaria um evento similar devastador, com prejuízos bilionários e paralisações de serviços por semanas ou meses. O Smile visa criar modelos de previsão mais precisos para permitir medidas de mitigação, como a reconfiguração de redes elétricas, ajuste de rotas aéreas e a colocação de satélites em modo de segurança, além de aumentar a proteção de astronautas em programas como o Artemis.

Para viabilizar esse estudo, o satélite transporta quatro instrumentos avançados. O principal é a câmera de raios X (SXI), desenvolvida por um consórcio europeu liderado pela Universidade de Leicester e com a participação do Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial (INTA) da Espanha, que criou o Detector Plane Assembly (DPA) para garantir a estabilidade térmica dos detectores. O SXI permitirá, pela primeira vez, a visualização direta da fronteira onde o vento solar interage com o campo magnético terrestre.

A carga útil inclui ainda um analisador de íons e um magnetômetro chineses, destinados a estudar as propriedades do plasma, e uma câmera ultravioleta (UVI), de cooperação sino-europeia, para observar as auroras. O satélite orbitará os polos terrestres, alcançando 121 mil quilômetros de altitude (5 mil quilômetros acima do Polo Sul). Essa trajetória permitirá o monitoramento contínuo de auroras por até 45 horas, intervalo compatível com a duração de tempestades geomagnéticas, possibilitando acompanhar a evolução completa desses fenômenos.

A indústria espanhola também integrou a construção do projeto, com a Airbus, Airbus Crisa e Sener fornecendo, respectivamente, o módulo de carga útil, a unidade de controle ampliada e a antena de banda X.

A colaboração entre ESA e CAS envolveu mais de 250 cientistas e superou desafios geopolíticos e atrasos causados pela pandemia de Covid-19. O projeto, iniciado em 2016, ocorre em um contexto de restrições impostas pelos Estados Unidos à cooperação espacial com a China, como a Emenda Wolf e o veto chinês à Estação Espacial Internacional. A ESA afirma que o processo segue os requisitos de seus Estados-membros e que a missão é baseada na complementaridade técnica. Para mitigar riscos de segurança nacional, a agência aplica controles rigorosos de proteção de dados e tecnologias sensíveis.

Nos próximos 25 dias, o Smile utilizará motores próprios para ajustar sua posição orbital. A ativação completa dos instrumentos deve ocorrer em três meses, iniciando a recepção de imagens em raios X e ultravioleta. A previsão é que o satélite colete dados durante três anos.

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