Sensores detectam migração de 300 milhões de metros cúbicos de magma no Mar Egeu
Sensores do projeto MULTI-MAREX detectaram a migração de 300 milhões de metros cúbicos de magma entre Santorini e o vulcão Kolumbo, na Grécia, entre janeiro e fevereiro de 2025. O fenômeno causou mais de 28 mil tremores e o afundamento do solo em 30 centímetros, levando o governo grego a declarar estado de emergência e evacuar 11 mil pessoas

Sensores submarinos do projeto MULTI-MAREX, liderado pelo GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel, detectaram a migração de aproximadamente 300 milhões de metros cúbicos de magma entre janeiro e fevereiro de 2025. O movimento ocorreu no subsolo da região entre Santorini e o vulcão submarino Kolumbo, ao norte de Santorini, na Grécia, resultando em um enxame sísmico recorde com mais de 28 mil tremores em poucas semanas.
A equipe internacional, com apoio do GFZ Helmholtz Centre for Geosciences, classificou o fenômeno como uma "intrusão dique-soleira" (sill intrusion). Nessa dinâmica, o magma ascendeu pela crosta como uma camada horizontal, estagnando-se a 4 quilômetros abaixo do leito do Mar Egeu, sem atingir o topo do edifício vulcânico. Esse acúmulo gerou tensões nas rochas circundantes, propagando milhares de tremores que delimitaram o trajeto do magma desde a câmara profunda até o ponto de parada. Alguns desses sismos registraram magnitudes entre 4,5 e 5,3 na escala Richter, com epicentros distribuídos entre Santorini, Anafi, Amorgos e Ios.
Para processar esses dados, o GEOMAR utilizou inteligência artificial na detecção e classificação de cada tremor, enquanto modelos automáticos mapearam a sequência das origens, permitindo a criação de um mapa 3D da migração magmática. De acordo com Marius Kriegerowski, do GFZ, trata-se da primeira vez que o trajeto de migração de magma sob um sistema vulcânico ativo do Mediterrâneo foi observado em tempo real.
O monitoramento foi complementado por medições InSAR de satélite, que revelaram que o solo da região afundou cerca de 30 cm em um único dia em pontos específicos. A infraestrutura do MULTI-MAREX, que inclui sismômetros de banda larga, sensores de pressão e equipamentos de medição de gases dissolvidos, permitiu a leitura mais densa já registrada para o Kolumbo. Em dezembro de 2025, a missão foi ampliada com a instalação de novos sensores e a cooperação com universidades gregas.
O vulcão Kolumbo possui uma cratera de 1,5 km de diâmetro e 500 metros de profundidade, com o topo situado entre 15 e 18 metros abaixo da superfície do mar. Essa profundidade rasa torna a estrutura um risco direto à navegação e potencial geradora de tsunamis em erupções explosivas. Historicamente, a última erupção, em 1650, causou a morte de cerca de 70 pessoas em ilhas vizinhas e atingiu localidades como Ios, Sikinos, Folegandros e Creta, com colunas de cinzas e gases tóxicos.
Atualmente, o fundo da cratera abriga um dos campos hidrotermais mais ativos do Mediterrâneo, com fumarolas que expelem água superquente e gases, depositando minério metálico do tipo Kuroko. O sistema hidrotermal pode acelerar futuras erupções caso o magma em ascensão entre em contato com a água pressurizada da câmara.
Embora a Organização Grega de Planejamento e Proteção contra Terremotos (OASP) considere o risco imediato de erupção baixo, devido à estagnação do magma a 4 km de profundidade, estudos de março de 2026 indicam que mesmo erupções moderadas poderiam gerar tsunamis de 5 a 8 metros nas ilhas vizinhas, chegando a Creta em 30 a 45 minutos.
Diante do evento de fevereiro de 2025, o governo grego declarou estado de emergência em Santorini e retirou preventivamente mais de 11 mil pessoas. A crise impactou severamente o turismo local, setor que recebe 3 milhões de visitantes anuais e representa 30% da economia da ilha. Em abril de 2026, novas restrições de acesso a áreas costeiras de risco foram implementadas.
A metodologia aplicada no Kolumbo agora serve de referência global e está sendo replicada em outros vulcões submarinos do Atlântico Oriental, do Tirreno e do Egeu. O monitoramento contínuo do GEOMAR e do GFZ foca agora em dois marcadores: novas intrusões de magma rumo à superfície ou a elevação súbita do edifício vulcânico, que indicaria a pressurização da câmara hidrotermal.