Serra da Cangalha é considerada pela NASA a cratera de impacto mais preservada do Brasil
A Serra da Cangalha, em Campos Lindos (TO), é a cratera de impacto mais preservada do Brasil, formada há 220 milhões de anos por um meteorito de 1,4 km. A estrutura circular possui diâmetro entre 13 e 13,7 quilômetros e teve sua origem confirmada em 2012
Localizada no município de Campos Lindos, no Tocantins, a Serra da Cangalha é classificada por estudos científicos e pela NASA como a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil. A formação, assentada sobre sedimentos da Bacia do Parnaíba, apresenta-se como uma estrutura circular rara no território nacional, com serras que atingem 400 metros de altura em meio a uma região plana, próxima à divisa com o Maranhão.
Enquanto do solo a paisagem sugere apenas formações rochosas típicas, imagens orbitais do programa Shuttle Radar Topography Mission (SRTM) revelam a real dimensão do local: um astroblema com diâmetro aparente entre 13 e 13,7 quilômetros. A estrutura é composta por três anéis concêntricos, sendo o externo com 11 km, um anel interno com colinas entre 5 e 6 km e um núcleo central elevado de 3 km, que resultou do rebote da crosta terrestre após a colisão.
A origem da cratera remonta ao período Triássico, há cerca de 220 milhões de anos. Na ocasião, um meteorito de 1,4 km de diâmetro atingiu a Terra a uma velocidade de 43.200 km/h (12 km por segundo). O impacto liberou uma energia de 2,74 × 10²⁰ joules, magnitude milhares de vezes superior a armas nucleares contemporâneas, pulverizando e derretendo rochas instantaneamente. Esse evento gerou brechas de impacto — fragmentos fundidos e compactados — e "shatter cones", formações geológicas que ocorrem apenas sob pressões extremas e servem como prova direta de impactos meteoríticos.
A identificação da natureza do local levou décadas. Em 1960, geólogos da Petrobras interpretaram a área como um domo geológico. A possibilidade de origem meteorítica foi sugerida por John McHone nos anos 1980, mas a confirmação definitiva ocorreu apenas em 2012. Por meio de tese de doutorado na Unicamp, orientada por Álvaro Penteado Crósta, o geólogo Marcos Alberto Rodrigues Vasconcelos comprovou a existência de shatter cones e brechas de impacto na região.
A Serra da Cangalha integra um grupo de ao menos oito crateras confirmadas no país. Entre elas destacam-se o Domo de Araguainha, na divisa entre Goiás e Mato Grosso, com 40 km de diâmetro, e o Riachão Ring, no Maranhão, com 4,5 km. A proximidade desta última com a Serra da Cangalha, separadas por 45 km, sugere a hipótese de que fragmentos de um único corpo celeste tenham causado múltiplos impactos.
Atualmente, a região central da cratera abriga vegetação nativa preservada e cavernas com rochas moldadas pela pressão do impacto. O Rio Manoel Alves Grande corta a estrutura, formando cachoeiras. Apesar da relevância geológica e ambiental, a área não possui proteção formal, embora exista a proposta de criação do Parque Estadual da Serra da Cangalha, abrangendo 16.617 hectares. A estrutura, que é atravessada pela rodovia TO-226, segue sendo objeto de estudos de instituições como UnB, Unicamp e Iphan, servindo como registro de eventos extremos que influenciam a evolução climática e geológica da Terra.