Ciência

Tecnologia holandesa utiliza bactérias para reparar fissuras em estruturas de concreto de forma autônoma

23 de Maio de 2026 às 18:07

A Universidade de Tecnologia de Delft desenvolveu um concreto que utiliza bactérias para reparar fissuras autonomamente por meio da produção de calcário. A tecnologia, comercializada pela Green Basilisk, é aplicada em obras na Holanda, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos. No Brasil, a solução bacteriana segue em fase de estudos acadêmicos

Tecnologia holandesa utiliza bactérias para reparar fissuras em estruturas de concreto de forma autônoma

A tecnologia de concreto autocicatrizante, desenvolvida na Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), na Holanda, utiliza bactérias para reparar fissuras em estruturas de engenharia de forma autônoma. O método, criado pelo microbiologista Henk Jonkers no final da década de 2000, baseia-se no uso das cepas *Bacillus pseudofirmus* e *Bacillus cohnii*. Esses microrganismos são capazes de sobreviver em ambientes alcalinos e secos, permanecendo em estado de espora dentro de cápsulas de lactato de cálcio misturadas ao concreto fresco.

O processo de reparação é ativado quando a água da chuva penetra em rachaduras da estrutura. Ao entrarem em contato com a umidade, as bactérias despertam, metabolizam o lactato e produzem calcário, preenchendo o vão interno da fissura. De acordo com a TU Delft, a vida útil desses microrganismos no concreto pode chegar a 200 anos, repetindo o ciclo de calcificação sempre que houver infiltração e disponibilidade de lactato.

A aplicação comercial dessa tecnologia é conduzida pela Green Basilisk, spin-off da universidade, que oferece concreto pronto para novas obras e argamassa de reparo para estruturas já existentes. A solução já é utilizada em pontes, túneis e muros de contenção na Holanda e no Reino Unido, tendo expandido sua distribuição para os Emirados Árabes Unidos em 2022 via contrato com a Conmix.

Do ponto de vista econômico e ambiental, o bioconcreto reduz a necessidade de concreto armado em novas projeções entre 30% e 40%, diminuindo o volume de cimento, aço e a pegada de carbono. O custo adicional na Europa varia entre 5 e 20 euros por metro cúbico, elevando o preço de 80 euros (concreto convencional) para uma faixa entre 85 e 100 euros. Esse investimento contrasta com os gastos anuais de manutenção de infraestruturas na União Europeia, estimados pela consultoria canadense Giatec Scientific entre 4 e 6 bilhões de euros.

No Brasil, a tecnologia bacteriana ainda não foi implementada em obras, permanecendo em fase de estudos acadêmicos, como em dissertações da UFRGS, da Universidade Federal do Amazonas e discussões no 1º Simpósio Brasileiro de Autocicatrização do Concreto. O país utiliza, como alternativa, aditivos cristalinos — agentes químicos que reagem com a água para selar fissuras.

Essa solução química foi aplicada em 2016 nas lajes de fundo de três estações da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro (Praça Nossa Senhora da Paz, Jardim de Alah e Antero de Quental), visando impedir a infiltração de água salgada em estruturas abaixo do nível do mar. Pesquisas da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) indicam que esse método aumenta a durabilidade da estrutura em até 47% e reduz a profundidade de carbonatação acelerada em 2 milímetros.

Apesar da eficácia dos aditivos químicos, que são estudados por pesquisadores como Emilio Minoru Takagi, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a solução possui alcance temporal limitado e é restrita a rachaduras pequenas, diferindo do desempenho da versão bacteriana europeia.

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