Tecnologia LiDAR revela civilização complexa com cidades e engenharia hidráulica na Amazônia boliviana
Tecnologia LiDAR identificou a Cultura Casarabe na Amazônia boliviana, ativa entre 500 e 1400 d.C. A varredura revelou 26 assentamentos com pirâmides, estradas elevadas e engenharia hidráulica que sustentou cerca de 100 mil pessoas. O mapeamento abrangeu 5.020 km² no departamento de Beni
O uso da tecnologia LiDAR revelou a existência de uma civilização complexa, a Cultura Casarabe, que prosperou na Amazônia boliviana entre os anos 500 e 1400 da Era Comum. Através de sensores a laser disparados por aeronaves, pesquisadores do Instituto Arqueológico Alemão, liderados por Heiko Prümers, conseguiram mapear o relevo do solo sob a densa vegetação dos Llanos de Moxos, no departamento de Beni, identificando estruturas que permaneceram ocultas por 1.500 anos.
A varredura detectou 26 assentamentos, com destaque para as cidades de Cotoca, que abrange 315 hectares, e Landívar, com 147 hectares. A infraestrutura urbana incluía pirâmides cônicas de até 21 metros de altura e plataformas artificiais extensas, algumas comparáveis em tamanho a 30 campos de futebol. Essas cidades eram interconectadas por estradas elevadas que chegavam a 10 quilômetros de extensão, projetadas para permanecer acima da linha de inundação característica da planície de Moxos.
O controle territorial da Cultura Casarabe abrangia aproximadamente 5.020 km², com Cotoca dominando uma área de influência de cerca de 500 km². A organização dos sítios, composta por centros maiores cercados por assentamentos menores, indica um planejamento regional centralizado e uma estrutura de governo.
Um ponto central da descoberta, detalhado em estudo publicado na revista Nature em 2025, é o sofisticado sistema de engenharia hidráulica. Os Casarabe desenvolveram uma rede dupla de canais de drenagem, tanques de retenção e charcos artificiais. Esse mecanismo permitia escoar o excesso de água durante as cheias e armazenar umidade para os períodos de seca, viabilizando duas colheitas anuais de milho. Essa capacidade de produção alimentar sustentou uma população estimada em 100 mil pessoas, contrariando a tese histórica de que a região era habitada apenas por pequenos grupos nômades.
A escala arquitetônica e a complexidade social dos Casarabe são comparáveis a outras sociedades antigas, inserindo-se no modelo de "urbanismo tropical de baixa densidade", similar a padrões observados em Angkor Wat, no Camboja, e no Sri Lanka. O LiDAR já demonstrou eficácia similar em outras regiões, como no Vale do Upano, no Equador, com cidades-jardim de 2.500 anos, e na Guatemala, onde foram localizados 964 assentamentos maias.
A civilização desapareceu por volta do ano 1400, possivelmente devido a conflitos, colapso agrícola ou mudanças climáticas, sendo completamente absorvida pela floresta até a chegada dos europeus no século XVI. Embora o mapeamento digital tenha revelado a morfologia dos sítios, a maior parte das estruturas ainda não foi escavada, o que mantém lacunas sobre a organização social e as crenças do povo.
Esses achados impulsionam a revisão do histórico da Amazônia pré-colombiana, sugerindo que a floresta era intensamente gerenciada e habitada. No Brasil, indícios como os geoglifos no Acre e estradas paleoindígenas no Mato Grosso e Amazonas apontam para padrões semelhantes de ocupação complexa, embora o país ainda não tenha realizado um mapeamento sistemático com a tecnologia LiDAR.