Ciência

União Europeia desenvolve projeto de satélites para garantir a soberania de suas comunicações governamentais

17 de Julho de 2026 às 06:47

A Starlink domina as comunicações via satélite de órbita baixa, enquanto a China e a Amazon desenvolvem constelações concorrentes. A União Europeia cria o projeto Iris² para garantir a soberania de comunicações governamentais e militares. A Europa depende de empresas externas para lançamentos, com previsão de implantação do sistema até 2029

A corrida pela hegemonia das comunicações via satélite deixou de ser um nicho comercial para se tornar uma ferramenta de projeção estratégica global. O cenário atual é dominado pela Starlink, da SpaceX, que consolidou a tecnologia de órbita terrestre baixa (LEO) — a faixa situada entre algumas centenas e milhares de quilômetros de altitude. Por estarem mais próximos da Terra, esses satélites reduzem drasticamente a latência, aproximando a velocidade de resposta da rede espacial à da rede terrestre.

A relevância da Starlink foi evidenciada em situações críticas, como no suporte a populações após terremotos no Chile e na coordenação de drones e artilharia durante o conflito na Ucrânia. No entanto, a dependência de uma infraestrutura controlada por uma única entidade privada gerou alertas sobre a vulnerabilidade estratégica, especialmente quando o acesso ao serviço foi interrompido em momentos decisivos no front ucraniano.

A disputa por órbita e novas concorrências

A SpaceX detém a permissão para colocar mais de 42.000 satélites em órbita, criando um cenário próximo ao monopólio. Essa posição é sustentada por lançamentos mais baratos e eficientes. Contudo, novas potências e empresas buscam alternativas:

  • China: O país desenvolve duas constelações estatais que somarão cerca de 30.000 satélites, além de programas comerciais como o da Geely, totalizando solicitações que superam 43.000 unidades.
  • Amazon LEO: O projeto de Jeff Bezos já possui mais de 390 satélites em órbita. A empresa planeja ativar seu serviço comercial até o fim deste ano, iniciando a cobertura pelas latitudes norte e sul e expandindo-se gradualmente para o equador.

A Starlink também avança para a terceira geração de satélites (V3), com unidades de mais de uma tonelada lançadas pelo foguete Starship. Esses novos aparelhos prometem multiplicar por dez a capacidade anterior, atingindo um terabit por segundo e permitindo a conexão direta de celulares ao espaço, sem a necessidade de antenas parabólicas. Outra frente de expansão da SpaceX é a criação de centros de dados flutuantes na órbita ultra-baixa, utilizando chips de IA e a refrigeração natural do vácuo.

A resposta europeia e o projeto Iris²

A União Europeia, embora com início tardio, desenvolve o Iris² para garantir a soberania de suas comunicações. Diferente dos modelos americanos, o foco do projeto europeu não é o mercado de consumo em massa, mas a blindagem de comunicações governamentais, militares e de serviços de emergência.

O Iris² se diferencia por operar em três camadas simultâneas: LEO (baixa), MEO (média, a 8.000 km) e GEO (geoestacionária, a 36.000 km). Essa estrutura multicamada serve como uma barreira de defesa; caso uma órbita seja hackeada ou neutralizada, as outras mantêm a conexão ativa. Essa arquitetura responde a eventos como o ataque cibernético à rede Viasat em fevereiro de 2022, que desativou modems na Ucrânia e turbinas eólicas na Alemanha.

O consórcio SpaceRISE, que inclui a espanhola Hispasat, a luxemburguesa SES e a francesa Eutelsat/OneWeb, molda o Iris². O projeto prevê:
* Implementação de criptografia quântica em fases posteriores.
* Prioridade absoluta para comunicações governamentais sobre o tráfego comercial.
* Foco em clientes de infraestrutura crítica, como aviação, transporte marítimo e governos que buscam independência tecnológica.

Limitações técnicas e mercado

Apesar do avanço dos satélites LEO, a fibra óptica permanece superior em capacidade onde a infraestrutura terrestre existe. Na Espanha, por exemplo, a cobertura de fibra atinge 95% dos domicílios, enquanto a quota de mercado da Starlink é de apenas 2%. A tecnologia LEO é vista, portanto, como uma solução de cobertura e backup para negócios críticos, e não de substituição da capacidade terrestre.

Atualmente, o setor de aviação já começa a integrar essas tecnologias. A Jetblue realiza testes com a Amazon LEO, e a Iberia já equipou aeronaves na rota Madrid-Rio de Janeiro.

O desafio final da União Europeia para alcançar a autonomia total, contudo, é logístico. O Iris² não deve implantar satélites até 2029 e, enquanto não expandir sua própria capacidade de fabricação de foguetes, a Europa continuará dependendo de empresas como SpaceX e Blue Origin para colocar sua independência em órbita.

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