Uso de cimento em formigueiros de saúva revela a complexidade de estruturas subterrâneas em São Paulo
O uso de cimento em formigueiros de Atta laevigata em Botucatu permitiu mapear estruturas com até 7.864 câmaras e profundidade de 7 metros. A técnica revelou túneis de forrageamento de até 70 metros e a organização de áreas de cultivo de fungos e descarte de resíduos. O estudo analisou a ventilação dos ninhos e o fluxo de gases induzido pelo vento

A utilização de cimento para moldar formigueiros abandonados de *Atta laevigata*, espécie de formiga-cortadeira conhecida no Brasil como saúva, permitiu a visualização detalhada de estruturas subterrâneas complexas. A técnica consiste em preencher os túneis com o material e, após a secagem, remover o solo ao redor, preservando em três dimensões a disposição de câmaras e galerias que seria perdida em escavações diretas.
Em investigações realizadas em Botucatu, no interior de São Paulo, a arquitetura de três ninhos foi analisada. Dois foram explorados por trincheiras e um por meio do molde de concreto. Os registros apontaram a existência de entre 1.149 e 7.864 câmaras, com profundidades que atingem 7 metros e túneis de forrageamento que se estendem por até 70 metros a partir da superfície. O volume dessas câmaras variou entre 0,03 litro e 51 litros, apresentando diferentes formatos e estados, como espaços preenchidos por solo, áreas vazias ou locais destinados ao cultivo de fungos.
A organização interna do ninho não é aleatória e reflete as necessidades biológicas da colônia. Como as saúvas não se alimentam diretamente de folhas, elas utilizam fragmentos vegetais como substrato para cultivar fungos, que servem de alimento. Por isso, a distribuição das câmaras é planejada para controlar a umidade, a temperatura e a circulação de gases. A estrutura conta com vias de circulação, áreas de descarte de resíduos e compartimentos de cultivo, protegendo a rainha, as larvas e os fungos de variações externas.
A dinâmica de ventilação também foi objeto de estudo em ninhos de *Atta laevigata* e *Atta capiguara*. Através do uso de gás traçador e moldes, observou-se que a entrada de ar rico em oxigênio ocorre por aberturas baixas, enquanto a saída de dióxido de carbono se dá por aberturas mais altas, processo induzido pelo vento. No entanto, a análise revelou que esse fluxo de ar não atravessa diretamente as câmaras de fungos; a respiração da colônia depende de fluxos difusivos entre o ar das câmaras, a atmosfera do ninho e o solo.
Essa arquitetura é resultado do trabalho coletivo das operárias, que escavam e transportam solo sem a necessidade de um comando centralizado. Além da complexidade estrutural, a atividade dessas formigas gera impacto ecológico ao movimentar grandes volumes de terra e influenciar a vegetação local. O mapeamento dessas construções biológicas contribui para pesquisas de manejo agrícola e reflorestamento, dado o impacto do consumo de material vegetal por essas espécies.