Ciência

Uso excessivo de inteligência artificial pode prejudicar capacidades cognitivas e o pensamento crítico

10 de Maio de 2026 às 15:11

O uso excessivo de inteligência artificial pode prejudicar a memória, o pensamento crítico e a criatividade devido à terceirização de funções cognitivas. Pesquisas indicam menor desempenho em testes de raciocínio e maior perda de memória entre usuários assíduos de chatbots. Especialistas recomendam o esforço intelectual prévio ao uso da tecnologia para evitar a deterioração cerebral

Uso excessivo de inteligência artificial pode prejudicar capacidades cognitivas e o pensamento crítico
Getty Images via BBC

A dependência excessiva de ferramentas de inteligência artificial (IA), como ChatGPT e Claude, tem levantado alertas sobre possíveis prejuízos a capacidades cognitivas fundamentais, incluindo a memória, o pensamento crítico, a atenção e a criatividade. Estudos recentes indicam que a terceirização de tarefas que exigem esforço mental pode levar à deterioração do raciocínio, uma vez que o cérebro tende a perder habilidades em funções delegadas a sistemas externos.

Esse fenômeno de "terceirização cognitiva" assemelha-se ao que já foi observado com o uso de GPS, que prejudica a formação de mapas mentais e a memória espacial, e com os mecanismos de busca, que reduzem a tendência de memorização de informações devido ao baixo esforço necessário para acessá-las. De acordo com Greene, da Universidade de Georgetown, a IA permite a substituição do processo pelo resultado, eliminando as tentativas e dificuldades que são essenciais para o desenvolvimento cerebral.

No campo do pensamento crítico, pesquisas revelam que usuários frequentes de IA apresentam desempenho inferior em testes padronizados. Esse cenário é agravado pela chamada "rendição cognitiva", quando o indivíduo confia mais na ferramenta do que no próprio julgamento, mesmo diante de erros da máquina. O risco é maior em temas onde o usuário possui pouco conhecimento, dificultando a avaliação da qualidade da resposta. Para mitigar isso, Hank Lee, da Universidade Carnegie Mellon, sugere que o usuário formule uma visão inicial sobre o assunto antes de utilizar a IA, transformando a ferramenta em um meio de testar o raciocínio, e não de substituí-lo.

A retenção de informações também é afetada. Um levantamento com 494 estudantes apontou que usuários assíduos de chatbots relataram mais episódios de perda de memória. Barbara Oakley, professora da Universidade de Oakland, explica que a facilidade de acesso à informação pode criar a falsa sensação de que o conteúdo foi armazenado na memória de longo prazo. Para contrapor essa tendência, recomenda-se o envolvimento ativo com o conteúdo, como a elaboração de anotações manuais ou a solicitação de flashcards e perguntas à IA para estimular a revisão.

A criatividade, que surge de conexões inesperadas no cérebro, também pode ser comprometida. Evidências sugerem que a IA gera ideias mais previsíveis e menos originais, o que pode enfraquecer o "músculo criativo" humano. A orientação de especialistas é que a produção intelectual comece com o esforço individual — mesmo que inicialmentes confuso ou incompleto — para que o cérebro utilize memórias e experiências pessoais antes de recorrer à tecnologia para aprimorar o resultado.

Apesar desses riscos, Jared Benge, neuropsicólogo da Universidade do Texas, pondera que a tecnologia não é inerentemente prejudicial. Se a IA for utilizada para aliviar a carga mental e permitir o foco em tarefas mais complexas, pode gerar benefícios cognitivos. Benge participou de uma meta-análise com 57 estudos e mais de 411 mil adultos que não encontrou evidências de "demência digital", sugerindo que o uso de tecnologia pode, em alguns casos, reduzir o risco de comprometimento cognitivo.

A adaptação humana a novas ferramentas é constante, e a capacidade de criar conexões genuinamente originais permanece como um diferencial humano frente às máquinas baseadas em probabilidade. O caminho para evitar a atrofia mental reside na escolha consciente por processos mais lentos e no enfrentamento do desconforto intelectual, garantindo que a tecnologia atue como suporte, e não como substituta do pensamento.

Notícias Relacionadas