Ciência

Vale submarino facilita a entrada de águas quentes sob a Geleira Totten na Antártida

25 de Maio de 2026 às 18:05

Pesquisadores identificaram um vale submarino de 5 quilômetros de largura sob a Geleira Totten, na Antártida Oriental, que facilita a entrada de águas quentes e causa a perda de massa do gelo. O mapeamento revelou que a plataforma apresenta a maior taxa média de derretimento basal da região, com perda de 10,5 metros por ano

Vale submarino facilita a entrada de águas quentes sob a Geleira Totten na Antártida
portal submarino que pode levar água quente ao gelo e elevar oceanos em mais de 3,5 m. – ilustração

Pesquisadores da Australian Antarctic Division, do Imperial College London e de outras instituições identificaram um vale submarino com cerca de 5 quilômetros de largura sob a Geleira Totten, na Antártida Oriental. A estrutura funciona como um corredor que permite a entrada de águas oceânicas relativamente quentes na base do gelo, explicando o afinamento e a perda de massa observados nessa região.

A descoberta, detalhada na revista Nature Geoscience, foi possível graças ao uso de gravímetros, sensores geomagnéticos, laser e levantamentos aéreos com radar de penetração no gelo. O mapeamento da topografia revelou que a água quente ataca a geleira por baixo, especificamente onde o gelo começa a flutuar. Como as plataformas de gelo atuam como barreiras naturais, a redução de sua espessura basal compromete a capacidade de conter o gelo continental que flui em direção ao oceano.

A vulnerabilidade da Geleira Totten é intensificada por sua geometria: parte da bacia que ela drena está situada abaixo do nível do mar, com áreas que atingem 1,7 quilômetro de profundidade oceânica e são cobertas por camadas de gelo de até 4 quilômetros. O sistema drena a Bacia Subglacial Aurora, que detém um volume de gelo capaz de elevar o nível global do mar em mais de 3,5 metros caso ocorra uma desestabilização extrema ao longo de séculos.

Complementando esses achados, um estudo publicado na Nature Communications em 2023 descreveu a dinâmica do transporte de calor. O National Institute of Polar Research, do Japão, apontou que a água quente chega à cavidade da plataforma por meio de duas grandes calhas glaciais profundas, facilitadas por uma combinação de circulação ciclônica, depressões amplas e quebras profundas na plataforma continental. Em ambientes polares, variações interanuais de temperatura de cerca de 0,8 °C na água são suficientes para alterar a taxa de derretimento basal.

Devido à dificuldade de acesso por navios, bloqueados por icebergs e gelo marinho, a coleta de dados foi realizada via helicópteros. Em uma operação de seis dias, 74 sondas AXCTD e AXBT foram lançadas em fendas de gelo com larguras entre 15 e 540 metros, medindo a salinidade e a temperatura até 1.000 metros de profundidade. Os instrumentos detectaram intrusões de água entre 0,5 °C e 1 °C em profundidades de 550 a 600 metros, além de registrarem a saída de água de degelo da cavidade, o que comprova o derretimento inferior.

Os dados indicam que a plataforma da Totten apresenta a maior taxa média de derretimento basal entre as analisadas na Antártida Oriental, com uma perda de 10,5 ± 0,7 metros por ano. Entre 2007 e 2008, a perda basal foi estimada em 63,2 ± 0,7 gigatoneladas anuais. Embora não indique um colapso imediato, a descoberta evidencia que a Antártida Oriental possui pontos de vulnerabilidade ao aquecimento oceânico, onde a interação entre o fundo marinho e a base do gelo pode comprometer a estabilidade de massas glaciais colossais.

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