Varda Space Industries e United Therapeutics testam a criação de medicamentos para doenças pulmonares no espaço
Varda Space Industries e United Therapeutics firmaram parceria para estudar a influência da microgravidade na formulação de medicamentos para doenças pulmonares raras. O projeto utiliza cápsulas autônomas para processar moléculas na órbita baixa da Terra e comparar os resultados com amostras terrestres

A Varda Space Industries e a United Therapeutics estabeleceram uma parceria para investigar como a microgravidade influencia a criação de formulações de medicamentos destinados a doenças pulmonares raras. O objetivo central é processar pequenas moléculas em plataformas orbitais na órbita baixa da Terra e, posteriormente, analisar essas amostras em laboratórios terrestres para comparar os resultados com materiais produzidos sob a gravidade terrestre.
A pesquisa fundamenta-se no fato de que, no espaço, a redução de correntes de convecção e da sedimentação altera a organização dos cristais durante a fabricação de substâncias. Enquanto na Terra a gravidade interfere na distribuição de partículas em suspensões e líquidos — afetando a uniformidade, a forma e o tamanho dos cristais —, a microgravidade permite que as moléculas se organizem de maneira mais lenta e ordenada. Essa diferença estrutural é determinante para a indústria farmacêutica, pois impacta a estabilidade, a biodisponibilidade, o armazenamento e a absorção de um fármaco pelo organismo.
Para viabilizar esses estudos, a Varda utiliza a série de veículos W, cápsulas autônomas projetadas para transportar cargas, operar experimentos e realizar a reentrada na atmosfera para a recuperação do material. A empresa já possui um histórico de missões, como a W-1, lançada em 2023 e retornada em fevereiro de 2024, na qual testou o antirretroviral ritonavir, embora não tenha sido identificada conversão da forma original do composto. Mais recentemente, a missão W-6, lançada em março de 2026 e com reentrada em maio do mesmo ano, transportou cargas para a NASA e parceiros governamentais.
A iniciativa de utilizar a órbita para aprimorar medicamentos não é inédita. A Merck & Co. utilizou o Laboratório Nacional da Estação Espacial Internacional para estudar a cristalização do pembrolizumabe, um anticorpo monoclonal contra o câncer. Os experimentos espaciais revelaram suspensões cristalinas mais homogêneas e com menor viscosidade do que as versões terrestres. Esses dados auxiliaram no refinamento de processos em solo para a criação de uma formulação subcutânea do medicamento, aprovada pela agência reguladora dos Estados Unidos em setembro de 2025.
No caso da colaboração entre Varda e United Therapeutics, o foco atual é a pesquisa e formulação, e não a distribuição comercial de fármacos fabricados no espaço. A United Therapeutics concentra sua atuação em biotecnologia para doenças graves, enquanto a Varda provê a infraestrutura de manufatura e reentrada. A análise comparativa entre as amostras orbitais e terrestres é a etapa essencial para validar se as alterações produzidas na microgravidade possuem relevância clínica ou industrial.
A expansão desse modelo de negócio é sustentada por investimentos significativos. Em julho de 2025, a Varda captou US$ 187 milhões, elevando seu capital total para US$ 329 milhões. Os recursos visam acelerar a manufatura robótica espacial, aumentar a frequência de voos e desenvolver um laboratório farmacêutico dedicado. Embora a empresa projete que seus veículos possam, futuramente, fabricar medicamentos em larga escala, tal possibilidade ainda depende de validações técnicas, econômicas e regulatórias, além de rigorosos testes de segurança e eficácia.