Ciência

Vozes humanas provocam reações de medo maiores em animais selvagens do que rugidos de leões

10 de Julho de 2026 às 06:22

Estudo da Universidade do Canadá indica que vozes humanas provocam reações de alarme mais intensas em 95% de 19 espécies de mamíferos do Parque Nacional Kruger. A propensão de fuga dos animais ao ouvir pessoas foi duas vezes superior à observada com rugidos de leões ou sons de caça

Vozes humanas provocam reações de medo maiores em animais selvagens do que rugidos de leões
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A percepção de que os leões representam a maior ameaça para a fauna da savana africana foi questionada por um estudo publicado na revista *Current Biology*. A pesquisa demonstrou que a voz humana provoca reações de alarme mais intensas em diversas espécies selvagens do que os rugidos dos grandes felinos.

Para chegar a esse resultado, a ecóloga Liana Y. Zanette, da Universidade do Canadá, liderou a análise de 19 espécies de mamíferos em pontos de água no Parque Nacional Kruger, na África do Sul, região com alta densidade de leões. A equipe instalou sistemas impermeáveis compostos por câmeras e alto-falantes em poças frequentadas por animais como elefantes, girafas, rinocerontes, leopardos, hienas, zebras, impalas, kudus e facóqueros.

Durante meses, os dispositivos reproduziram cerca de 10 mil gravações, que incluíam sons de disparos de caça, latidos de cães, rugidos de leões e conversas humanas em quatro idiomas: inglês, afrikaans, sotho do norte e tonga. Os dados revelaram que 95% das espécies estudadas abandonavam o local ou fugiam com maior frequência ao ouvir vozes humanas. A propensão de fuga diante da presença sonora de pessoas foi duas vezes superior à observada com sons de leões ou atividades de caça.

O biólogo de conservação Michael Clinchy, coautor do trabalho, pontuou que, embora os leões sejam os maiores predadores terrestres de caça em grupo do planeta e, teoricamente, o foco principal de medo no ecossistema, a realidade observada foi distinta. Clinchy destacou que os rugidos utilizados no experimento simulavam interações e grunhidos entre os felinos, e não ataques diretos.

A intensidade das reações variou entre as espécies, chegando a casos de agressividade. Zanette relatou que um elefante destruiu completamente o equipamento de monitoramento após reagir violentamente a uma gravação de leão. No entanto, esse evento isolado não alterou a tendência geral do estudo, que posiciona o ser humano como o predador mais temido.

A conclusão dos pesquisadores indica que o medo dos humanos é generalizado e profundo, refletindo o impacto desproporcional da espécie sobre a fauna. Para a equipe, os resultados evidenciam que os animais selvagens sentem um terror maior em relação aos seres humanos do que em relação a qualquer outro predador natural.

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