Consumo global de energia por data centers de inteligência artificial pode ultrapassar 1.000 TWh até 2026
Data centers de IA consumiram 415 TWh de eletricidade em 2024, com projeção de ultrapassar 1.000 TWh até 2026. No Brasil, a capacidade do setor deve subir de 730 MW para 3,2 GW até 2030, com investimentos de R$ 500 bilhões. O consumo global de água dessas unidades pode chegar a 1,2 trilhão de litros anuais até 2030
Os data centers de inteligência artificial (IA) consumiram 415 TWh de eletricidade em 2024, o que representa 1,5% da demanda global, volume equivalente ao gasto anual de nações inteiras. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), esse número pode ultrapassar 1.000 TWh até o fim de 2026, atingindo patamares de consumo de países como Japão ou Alemanha. O Gartner projeta que a demanda mundial suba de 448 TWh em 2025 para 980 TWh em 2030, período em que a participação de servidores de IA no total de consumo saltará de 21% para 44%.
No Brasil, a infraestrutura de data centers soma cerca de 200 clusters, colocando o país na 12ª posição global e na liderança da América Latina. A expectativa é de que a capacidade brasileira quadruplique, passando de 730 MW para 3,2 GW até 2030, com investimentos estimados em R$ 500 bilhões. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), por meio do PLAN 2026–2030, prevê que a demanda média adicional desses centros suba de 89 MW em 2025 para 2.157 MW em 2030. Paralelamente, o MIT Technology Review Brasil estima que o consumo do setor no país suba de 1,7% para 3,9% da demanda nacional até 2029, superando o gasto energético de toda a iluminação pública brasileira.
A escala de consumo dos novos complexos de IA é drasticamente superior aos centros convencionais. Enquanto uma unidade tradicional de 20 MW equivale ao consumo de 80 mil residências, quatro novos projetos previstos para Uberlândia (MG), Maringá (PR), Eldorado do Sul (RS) e Rio de Janeiro (RJ) devem consumir, somados, o equivalente a 16,4 milhões de casas. O Rio AI City, em Jacarepaguá, terá potência inicial de 1.500 MW — consumo de 6 milhões de residências — com expansão para 3.200 MW. Já o Scala AI City, no Rio Grande do Sul, deve atingir 1.800 MW até 2033, com potencial de chegar a 5.000 MW em um município de 40 mil habitantes.
Essa expansão enfrenta gargalos globais. Microsoft, Alphabet, Meta e Amazon planejavam investir US$ 635 bilhões em infraestrutura e chips até 2026, mas a crise no Oriente Médio elevou os custos de energia, deteriorando a viabilidade econômica dos projetos. O Gartner indica que 40% dos data centers de IA estarão limitados pela disponibilidade energética até 2027, pois a capacidade de expansão dos provedores não acompanha a demanda.
A operação desses centros exige estabilidade rigorosa, com disponibilidade anual entre 99,982% e 99,995%, permitindo menos de cinco minutos de falha por ano. Essa exigência torna as fontes solar e eólica insuficientes devido à intermitência. Nesse cenário, o gás natural surge como alternativa estratégica por meio de microturbinas e motores de ciclo combinado, oferecendo geração descentralizada, estabilidade de preços e emissões de CO₂ até 50% menores que as do carvão ou óleo combustível. Estudos da USP e da Energisa, em parceria com o instituto Pensar Energia, apontam que a viabilidade dos data centers no Brasil depende da integração entre renováveis e energia firme. O Nordeste, que atualmente descarta mais de 20% de sua geração renovável por falta de demanda, poderia se tornar um hub digital se contar com energia despachável.
No campo regulatório, o governo criou em setembro de 2025 o REDATA, regime de suspensão de tributos federais para data centers, e a Câmara aprovou o PL 278/26 em fevereiro de 2026. Contudo, a exigência de uso exclusivo de fontes limpas gerou reações de entidades como Firjan, Fiergs, Abegás, IBP e FGV Energia, que solicitam a inclusão do gás natural para manter a competitividade do país. O uso do biometano também é visto como caminho para a transição gradual para volumes renováveis na mesma infraestrutura.
Além da energia, o impacto hídrico é expressivo. A IEA aponta que o consumo global de água por data centers deve subir de 560 bilhões de litros anuais para 1,2 trilhão até 2030, com unidades individuais consumindo até 1,9 milhão de litros por dia. Apesar disso, o Brasil mantém vantagem competitiva com 87% de sua matriz elétrica renovável, superando a média global de 30%.