Economia

Estados Unidos propõem tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após investigação de comércio bilateral

20 de Junho de 2026 às 06:06

Os Estados Unidos propõem taxar produtos brasileiros em 25% devido a práticas que restringem o comércio bilateral. Empresas americanas solicitam isenções para insumos específicos, enquanto o governo brasileiro busca contestações técnicas e diplomáticas. A decisão final sobre a implementação das tarifas ocorrerá em 15 de julho

O governo dos Estados Unidos propõe a implementação de uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, após investigação do Escritório do Representante de Comércio (USTR) que aponta a existência de práticas brasileiras que restringem ou oneram o comércio bilateral. O relatório do órgão cita questões como a pirataria, o combate ao desmatamento ilegal, a aplicação de leis anticorrupção e o sistema PIX como motivadores da medida.

A proposta gerou mobilização de empresas americanas que dependem de insumos do Brasil. Ao menos 12 empresas e entidades setoriais dos EUA enviaram manifestações ao USTR solicitando a isenção de produtos específicos, argumentando que a sobretaxa elevaria custos operacionais e reduziria a competitividade da indústria doméstica, dado que não existem fornecedores alternativos com a mesma escala, qualidade e preço.

No setor de pedras preciosas e semipreciosas, a GeoCentral, atacadista de Ohio controlada pela holding CM Paula, informou que mais de 25% de seu portfólio provém de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A companhia detalhou que cerca de 120 de seus produtos seriam impactados, destacando que a infraestrutura mineradora brasileira para extração, corte e polimento em larga escala é irreplicável em outros países. Em 2025, as exportações brasileiras de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas para os EUA somaram US$ 45,6 milhões, valor que sobe para US$ 71,8 milhões ao incluir joias e artigos de matérias preciosas.

Outros setores também pressionam pela exclusão da tarifa. Empresas de pisos e construção, como The Fantastic Floor, Artivo Surfaces, Strong Flooring Solutions e Wood Timber Import, alegam que madeiras nativas da América do Sul, como o cumaru e o jatobá, não possuem substitutos comerciais nos EUA. A JKG Inc. ressaltou que as características geológicas únicas do granito, mármore e quartzo brasileiros encareceriam obras civis, enquanto a Legacy Roots Housing Initiative alertou para possíveis atrasos em projetos de habitação modular. No setor educacional, a Lauria Dental Model argumentou que a taxa sobre modelos odontológicos elevaria os custos de formação profissional. Já a American Seed Trade Association (ASTA) defendeu a isenção de sementes para plantio para evitar prejuízos à inovação agrícola americana.

O histórico recente de tarifas já trouxe impactos concretos. George White, CEO da CM Paula, relatou que sobretaxas anteriores forçaram a empresa a demitir funcionários, reduzir investimentos em marketing e elevar preços no atacado. Parte desses valores começou a ser recuperada após a Justiça americana questionar a legalidade de tarifas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Em 20 de novembro de 2025, o presidente Donald Trump revogou uma tarifa de 40% sobre produtos agropecuários brasileiros. Posteriormente, a Suprema Corte dos EUA considerou ilegais parte das sobretaxas, embora uma tarifa global de 10% tenha sido mantida temporariamente por um tribunal federal de apelações. A CM Paula já apresentou 117 pedidos de restituição de valores referentes a importações do Brasil e da China.

Atualmente, o governo brasileiro atua via Itamaraty por meio de contestações técnicas ao USTR e negociações diplomáticas. Há a possibilidade de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante a cúpula do G7, na França. Paralelamente, a Amcham Brasil mantém diálogos com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e prepara nova manifestação ao USTR para alertar sobre o risco de substituição de fornecedores brasileiros por concorrentes asiáticos.

O cronograma do processo prevê o encerramento do prazo para manifestações escritas em 1º de julho, seguido de uma audiência pública em 6 de julho. A decisão final e a eventual implementação das tarifas estão previstas para 15 de julho. A proposta prevê exceções para materiais informativos, doações e produtos como café, chá, cereais, sementes, frutas e determinadas carnes.

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