Países do BRICS planejam estrutura farmacêutica própria para reduzir a dependência de laboratórios ocidentais
Países do BRICS planejam criar uma estrutura farmacêutica própria para diminuir a dependência de laboratórios ocidentais e ampliar o comércio de medicamentos. A estratégia foca na harmonização de regulações sanitárias e na integração de competências produtivas entre as nações membros
Os países do BRICS articulam a criação de uma estrutura farmacêutica própria para reduzir a dependência de laboratórios americanos, europeus e suíços, visando capturar parte de um mercado global que movimenta mais de US$ 1,5 trilhão anualmente. A iniciativa busca alterar a distribuição de poder em um setor onde as nações do bloco, que representam quase metade da população mundial, gastam centenas de bilhões de dólares por ano em importações.
A estratégia foi detalhada em sessão realizada na sede da TV BRICS, em Moscou, com a participação de empresas farmacêuticas russas, centros de análise, organizações industriais e representantes dos setores público e privado. O foco central é a expansão da produção e do comércio de medicamentos entre os membros e para o Sul Global. Para viabilizar esse fluxo, a prioridade é a harmonização das regulações sanitárias, eliminando a necessidade de processos de registro duplicados que demandam milhões de dólares e anos de espera para que produtos russos cheguem a mercados como Brasil, China e Índia.
A Rússia, sob sanções ocidentais desde 2022, encara a autonomia da cadeia de suprimentos como urgência geopolítica para garantir medicamentos essenciais. A IQDATA apresentou projeções de crescimento para o mercado farmacêutico russo entre 2026 e 2030, fundamentadas na substituição de importações europeias e no aumento da capacidade produtiva interna. Para apoiar essa expansão, o Centro de Exportações da Rússia disponibilizou instrumentos financeiros e logísticos que abrangem todo o ciclo de exportação.
A viabilidade do ecossistema depende da integração de competências complementares: a Índia contribui com a produção massiva de genéricos; o Brasil aporta a expertise de laboratórios como Butantan e Fiocruz em biológicos e vacinas; e a China oferece escala industrial e investimento em pesquisa. A coordenação dos debates ficou a cargo da Associação dos Fabricantes de Produtos Farmacêuticos da União Econômica Eurasiática, reforçando que a movimentação envolve um bloco econômico amplo.
A aceleração desse processo foi impulsionada pelas dificuldades de acesso a insumos e vacinas enfrentadas pelo Sul Global durante a pandemia de Covid-19. Para conectar a oferta e a demanda, a estratégia inclui a utilização da TV BRICS como plataforma de diplomacia midiática, promovendo a imagem do setor e facilitando a comunicação entre governos e empresas para que produtos competitivos alcancem novos mercados.