Economia

São Francisco registra a maior valorização imobiliária dos Estados Unidos em março de 2026

12 de Julho de 2026 às 06:03

O mercado imobiliário de São Francisco teve a maior valorização dos EUA em março de 2026, com alta de 19% no preço médio das residências. Em maio, o valor médio de venda atingiu o recorde de US$ 1,76 milhão. O crescimento é impulsionado pelo capital de empresas de inteligência artificial

São Francisco registra a maior valorização imobiliária dos Estados Unidos em março de 2026
Open Homes via BBC

O mercado imobiliário de São Francisco registrou a maior valorização dos Estados Unidos em março de 2026, superando a cidade de São Jose. De acordo com dados da Redfin, o preço médio das residências na cidade subiu 19% em março em relação ao ano anterior, mantendo a trajetória de alta com incrementos de 14,5% em abril e 14,1% em maio. O valor médio de venda atingiu o recorde de US$ 1,76 milhão em maio, contrastando com a média nacional americana de quase US$ 400 mil, onde as altas foram de apenas 1,4% em março e 2% nos meses seguintes.

Esse aquecimento é impulsionado pela concentração de empresas de inteligência artificial (IA), como a OpenAI e a Anthropic, que transformaram a cidade no centro da revolução tecnológica. O fluxo de capital do setor reverteu a recessão imobiliária iniciada na pandemia, elevando especialmente os preços em endereços de luxo, como no bairro Duboce Triangle. A liquidez do mercado é alimentada por salários elevados, bônus de contratação e a venda de opções de ações. Em outubro passado, ex-funcionários e colaboradores da OpenAI movimentaram US$ 6,6 bilhões em vendas de ações, com média de US$ 11 milhões por participante. Movimento similar ocorreu na Anthropic, com vendas autorizadas de cerca de US$ 6 bilhões.

A expectativa de abertura de capital (IPO) de ambas as empresas entre este ano e o próximo deve ampliar a criação de novos multimilionários, pressionando ainda mais os preços. A demanda é tão alta que surgiram modalidades de negociação atípicas, como a oferta de ações da OpenAI ou Anthropic como forma de pagamento em vez de dinheiro. Um exemplo recente foi a venda de um apartamento de três dormitórios no Duboce Triangle, anunciado por quase US$ 3 milhões e fechado por US$ 3,2 milhões, valor US$ 200 mil acima do pedido inicial.

Corretores locais relatam que a tendência de alta abrange desde casas unifamiliares até apartamentos de um quarto, com a recorrência de "guerras de lances" que elevam os preços finais em milhões de dólares acima do valor de face. Há também um aumento significativo em compras à vista, especialmente no segmento de alto padrão. Esse cenário é agravado por uma oferta cronicamente limitada de imóveis, devido à geografia da cidade, à alta proporção de inquilinos e a dificuldades históricas na construção de novas moradias.

Por outro lado, a economia local apresenta fatores de contenção. Enrico Moretti, professor de economia da Universidade da Califórnia, Berkeley, observa que a população e os níveis de emprego ainda não recuperaram os patamares pré-pandemia. Além disso, demissões em massa em gigantes como a Meta e a transição da IA para uma fase de consolidação podem reduzir a necessidade de mão de obra altamente especializada e, consequentemente, a capacidade de exigência salarial. Moretti ressalta ainda que a maior parte da riqueza dos futuros IPOs deve beneficiar investidores globais, e não necessariamente os funcionários locais.

O impacto social dessa disparidade financeira reflete-se na mobilidade urbana. Enquanto profissionais do setor de IA conseguem adquirir imóveis à vista em bairros disputados, famílias sem vínculos com a tecnologia têm sido forçadas a se mudar para cidades suburbanas ao norte da região da Baía de São Francisco para conseguir moradias com mais espaço, resultando em trajetos diários mais longos para quem trabalha na capital.

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