Tensões entre Estados Unidos e Irã geram impactos econômicos de 700 bilhões de dólares
Tensões entre Estados Unidos e Irã causaram impactos econômicos de US$ 700 bilhões, elevando custos logísticos e riscos ao abastecimento de medicamentos. O setor farmacêutico global depende da China, que produz 44% dos insumos ativos, e da Índia, principal polo de genéricos. O Brasil importa cerca de 90% de seus insumos desses dois países
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As tensões entre Estados Unidos e Irã geraram impactos econômicos estimados em US$ 700 bilhões, segundo o Institute for Economics and Peace. O cenário é marcado pela volatilidade do preço do petróleo, que provoca a redução de receitas de exportação, elevação de custos operacionais e desestabilização das cadeias de suprimentos globais. Esse contexto reacende o risco de uma crise no abastecimento de medicamentos, similar à ocorrida durante a pandemia de Covid-19.
O setor farmacêutico enfrenta a compressão de suas margens de lucro devido ao aumento dos prêmios de seguro, custos de energia e a necessidade de redefinir rotas logísticas. A situação é crítica para produtos de alto valor agregado, vacinas e medicamentos essenciais com validade curta, já que 35% desses itens dependem do transporte aéreo. No modal marítimo, ataques dos Houthis ao Canal de Suez e o fechamento do estreito de Ormuz forçaram embarcações a contornar a África, o que praticamente dobra o tempo de viagem e amplia os gastos logísticos.
A vulnerabilidade do sistema global de saúde está ligada à concentração da produção. A China detém 44% da fabricação mundial de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), exportando anualmente mais de US$ 42 bilhões, com a projeção de que seu mercado farmacêutico atinja US$ 300 bilhões em 2026. O país também lidera a inovação biotecnológica, concentrando 70% das famílias de patentes farmacêuticas globais, superando os Estados Unidos em volume.
Paralelamente, a Índia atua como o principal polo de genéricos, com 20% de participação no mercado global e exportações para mais de 200 países. Embora o mercado indiano de medicamentos seja estimado em US$ 65 bilhões — com projeções de chegar a US$ 130 bilhões nos próximos anos e US$ 450 bilhões até 2047 —, a operação depende da importação anual de US$ 3,2 bilhões em IFAs chineses.
A instabilidade no Oriente Médio reflete-se na manutenção de preços elevados do petróleo e no encarecimento do financiamento. A Lloyd’s de Londres mantém prêmios de seguro elevados para cargas e tripulações na região, evidenciando que a situação no estreito de Ormuz e a recuperação de instalações energéticas danificadas permanecem incertas, mesmo após acordos de paz. O resultado é a oscilação entre a alta de preços em mercados desenvolvidos e o desabastecimento em nações mais pobres.
O Brasil é diretamente afetado por esse cenário, pois importa aproximadamente 90% de seus IFAs da China e da Índia. A dependência externa torna o país sensível aos custos de transporte e energia, evidenciando a urgência de autossuficiência em insumos para medicamentos críticos.
Para mitigar esses riscos, o país demanda mudanças estruturais na política de inovação e diversificação de fornecedores. A lentidão nesse processo é atribuída a bloqueios de verbas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e à ausência de mecanismos para acelerar o patenteamento de fármacos. Uma medida apontada para a modernização econômica seria a implementação de um sistema de vinculação de patentes, modelo adotado desde 1984 pelos Estados Unidos e utilizado posteriormente por China, Coreia do Sul, Singapura, Canadá e Austrália para viabilizar acordos comerciais bilaterais.