Descendentes de imigrantes formam base de seleções europeias favoritas para a próxima Copa do Mundo
Seleções favoritas à Copa do Mundo, como França, Holanda, Alemanha e Inglaterra, possuem elencos com alta proporção de descendentes de imigrantes. A França registra o maior índice, com 77% dos convocados nessa condição. A Espanha também é candidata ao título, embora apresente menos de 10% de filhos de imigrantes no grupo
A presença de descendentes de imigrantes tornou-se um pilar fundamental nas seleções europeias favoritas para a Copa do Mundo que será sediada nos Estados Unidos, México e Canadá. De acordo com projeções da Opta, equipes como França, Holanda, Alemanha e Inglaterra figuram entre as principais candidatas ao título, apresentando elencos com alta diversidade étnica.
A França registra o índice mais expressivo: 77% dos seus 26 convocados são filhos de imigrantes. O grupo é liderado por estrelas como Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé, ambos filhos de imigrantes. A diversidade tem sido a base de trajetórias recentes da equipe, que foi campeã em 2018 e vice-campeã em 2022. Na Holanda, metade do elenco é composta por descendentes diretos de estrangeiros, enquanto Alemanha e Inglaterra possuem ao menos um terço de seus jogadores nessa condição.
A Espanha também é considerada favorita, embora apresente um perfil diferente, com menos de 10% de filhos de imigrantes no grupo. Ainda assim, a ascendência de atletas como Nico Williams, de origem ganesa, e Lamine Yamal, cujos pais nasceram em Marrocos e Guiné Equatorial, coloca a imigração no centro do debate esportivo no país.
Esse cenário reflete fluxos migratórios iniciados na década de 1960, quando ex-colônias na África e Ásia conquistaram a independência. O movimento foi impulsionado pela busca por melhores condições de vida e pelo Estado de bem-estar social europeu, atraindo refugiados de guerras e imigrantes de antigas colônias. Entre 2014 e 2016, a crise dos refugiados levou mais de 1,5 milhão de pessoas à União Europeia, e em 2022, o bloco recebeu 5,3 milhões de pessoas nascidas fora da Europa.
Contudo, essa realidade contrasta com o endurecimento das políticas migratórias em diversos países europeus, impulsionado pelo crescimento da extrema direita. A França facilitou a expulsão de imigrantes ilegais e impôs cotas para nacionalizações. A Alemanha agilizou deportações e suspendeu a reunificação familiar por dois anos. O Reino Unido dobrou para 10 anos o prazo para residência permanente e estabeleceu a deportação de refugiados para países considerados seguros. Já a Holanda declarou "crise de asilo" entre 2024 e 2026, limitando o reagrupamento familiar e fechando fronteiras com a UE.
A Espanha segue uma linha oposta ao restante do bloco. Entre 2022 e 2024, o país recebeu ao menos um milhão de não-europeus por ano e, em abril, aprovou a regularização de 500 mil imigrantes para suprir a falta de mão de obra.
No campo esportivo, a ascensão de atletas como Mbappé, Yamal e Zinedine Zidane é vista como um exemplo de mobilidade social via meritocracia. Entretanto, a contradição social se manifesta no racismo. Jogadores são frequentemente celebrados nas vitórias, mas tornam-se alvos de ofensas em derrotas.
Casos emblemáticos incluem Mbappé, que cogitou se aposentar da seleção aos 22 anos após ser chamado de "macaco" após a Eurocopa de 2021, e o trio inglês Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho, que sofreram ataques racistas após perderem pênaltis na final do mesmo torneio. Na Espanha, Lamine Yamal foi alvo de cânticos racistas em um amistoso em março, reagindo posteriormente ao levantar a bandeira da Palestina em uma comemoração de título. Como forma de protesto, alguns atletas franceses, a exemplo de Benzema entre 2013 e 2018, adotaram a prática de não cantar o hino nacional durante as partidas.